A farsa dos termômetros digitais usados na entrada de supermercados, shoppings e igrejas no Centro

A medição da temperatura das pessoas nas entradas de grandes estabelecimentos, como supermercados e igrejas, está sob suspeita.

A maioria dos resultados aponta para uma temperatura abaixo da normal: em torno de 35º, embora a temperatura do corpo humano saudável fique entre 36,5º a 37º.
Tecnicamente, uma pessoa está sofrendo hipotermia quando a temperatura corporal for menor que 35º e, nesse caso, deve procurar atendimento médico imediato.

Segundo decreto da prefeitura, todo estabelecimento de atendimento ao público, com mais de 1 mil metros quadrados, deve medir a temperatura das pessoas antes de adentrar no local.
A iniciativa visa a conter a disseminação da Covid-19 na cidade. No caso dos templos religiosos, deve ser medida quando comporta mais de 300 fiéis.
Se a pessoa estiver com temperatura acima de 37,8º, fica proibida de ingressar ao local, e a orientação é que volte para casa e ligue para o Alô Saúde da Prefeitura de Florianópolis.
Alertado por leitores, o Floripa Centro foi às ruas da região central da cidade: em nove estabelecimentos visitados ao longo de duas semanas, a temperatura deste saudável repórter, apontada pelos termómetros, oscilava entre 33,2º e 36,1º, passando por vários estágios intermediários.
A reportagem, além de medir a própria temperatura, em cada local, acompanhou a medição de pelo menos mais cinco pessoas.
Quem deve controlar os termômetros?
Os termômetros digitais infravermelhos são aprovados pela Anvisa e ‘vão para o mercado’.
Nenhum outro órgão público afere a sua precisão, posteriormente.
A Vigilância Sanitária de Florianópolis diz que fiscaliza o método de medição de temperatura, mas não a eficiência dos termômetros.
O Imetro-SC informa que não fiscaliza os termômetros digitais infravermelhos, apenas os termômetros clínicos.

ATUALIZAÇÃO DE 26/5:
O Ministério Público de Santa Catarina iniciou uma investigação para apurar possíveis irregularidades na medição da temperatura realizada nas entradas de supermercados, igrejas e shoppings de Florianópolis.
O promotor de Justiça Luciano Trierweiller Naschenweng instaurou, nesta terça-feira, 26, um procedimento chamado ‘Notícia de fato’, para apurar informações publicadas no Portal Floripa Centro, de que a maioria dos termômetros digitais infravermelhos usados na Capital aponta temperaturas abaixo do normal, em torno de 35º.

ABAIXO CONTINUA A REPORTAGEM ORIGINAL, DO DIA 25/5:

Produto sumiu das lojas:
Existem diversas marcas de termômetros digitais infravermelhos.
Na Santa Apolônia, tradicional distribuidora de materiais médicos e de saúde da Capital, os preços dos modelos variam entre R$ 180 e R$ 400. A diferença nos valores, de acordo com a atendente, se deve à qualidade de cada modelo.
Porém, há mais de duas semanas a loja não tem os termômetros e ‘não há previsão de chegada’.

Em cinco farmácias do microcentro visitadas pela reportagem também não há o produto para venda. ‘É muita demanda e a distribuidora não está mandando’, disse uma funcionária.
“Ninguém tem, não adianta procurar. Faz tempo que não vem mais”, complementou, informando que, quando vendia, o preço do termômetro era R$ 199.

Em contato com algumas distribuidoras nacionais do termômetro infravermelho também foi informado que não há previsão de disponibilidade para a entrega do produto.

Entrevista – Priscilla Valler, diretora de Vigilância em Saúde da Vigilância Sanitária de Florianópolis

  • A Vigilância Sanitária fiscaliza a eficácia dos termômetros digitais infravermelhos usados nos estabelecimentos da Capital?
    – Nós fiscalizamos o método de medição de temperatura, mas não a eficácia dos termômetros, que são autorizados pela Anvisa. Também verificamos o comprovante de calibração e se o equipamento é autorizado pela Anvisa.
  • A Vigilância Sanitária tem algum equipamento para verificar a precisão do termômetro?
    – Não, isso deve ser aferido pelo fabricante e autorizado pela Anvisa.
  • Qual o resultado da fiscalização do cumprimento do decreto da prefeitura?
    – Desde o começo da exigência, em 27 de abril, já foram vistoriados 36 supermercados, 19 hotéis, três shoppings e 11 igrejas em todo o município. Tivemos apenas um estabelecimento que estava utilizando termômetro não indicado para aferição. O local foi autuado e se não se adequar às normas será multado em até R$ 2,5 mil e pode ser interditado.
  • O que fazer diante da suspeita de mau funcionamento do equipamento?
    – O cidadão pode fazer a denúncia e a Vigilância Sanitária vai até o local para fazer a verificação da calibração e autorização da Anvisa.
    (Canal de denúncia: https://vigilanciasanitaria.pmf.sc.gov.br/denuncia?1)

Orientações de uso:
Sobre a durabilidade do produto, a fabricante Techline informou, por e-mail, que não há necessidade de manutenção constante. “Normalmente os usuários que utilizam este produto de forma profissional nos enviam uma vez por ano, porém, não existe nenhuma norma ou recomendação para que isto seja feito”.

Quanto ao desgaste do equipamento, a Techline diz que “a quantidade de medições é ilimitada, portanto, a temperatura pode ser medida quantas vezes for necessário”.
No site da “Highmed, soluções em tecnologia da medição” é informado que a margem de erro do termômetro fica entre 0,2 graus e 0,3 graus e que a medição deve ser feita de uma distância mínima de 5 centímetros e máxima de 15 centímetros. Os modelos têm
seis meses de garantia de fábrica.

O que diz o Imetro-SC:
O Instituto de Metrologia de Santa Catarina (Imetro-SC) não fiscaliza os termômetros digitais infravermelhos, apenas os termômetros clínicos, informou a assessoria de imprensa do órgão.
Os infravermelhos, diferentemente dos termômetros digitais, não são regulamentados pelo Inmetro, pois não existe um controle metrológico para avaliação de modelo e verificações iniciais.
Seu registro se dá apenas no âmbito da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

O que diz a Anvisa:
Em contato telefônico com a Anvisa para buscar informações, o atendente solicitou que fosse preenchido um formulário eletrônico no site, cujo prazo de resposta é 15 dias úteis.

As explicações informais dos operadores:
Em cada local onde foi verificada a medição, a reportagem conversou com os ‘operadores’. Cada um tem uma teoria, logicamente, sem base científica.
Confira:
– “O resultado depende se a pessoa está suada ou não”.
– “Se o cliente vem de carro com ar condicionado, isso influencia”.
– “Quando a pilha fica fraca o termômetro começa a falhar”.
– “Não tem problema em estar com 35º, o problema é quando passa dos 37º”.
– “Estes termômetros marcam um grau a menos, sempre. Então, quando aponta perto de 37º, a gente adverte a pessoa”.

Bastidores da reportagem:
Alô Saúde: Em contato telefônico com o serviço da prefeitura ‘Alô Saúde’, a técnica de Enfermagem Cleusa explicou que a temperatura normal da pessoa gira entre 36,5º e 37º.
Ao ser informada que em muitos estabelecimentos a temperatura deste repórter apontava 35º, ela logo se prontificou a colaborar, perguntando sobre meu estado de saúde.
Quando informei que no meu termômetro doméstico a minha temperatura era 36,6º, ela se acalmou e disse: “Ok, se você está se sentindo bem de saúde, pode confiar no seu termômetro doméstico, então. Mas sentindo qualquer outro sintoma, por favor, ligue para nós”.
Igreja Universal: no momento da visita, pela manhã, à catedral da Igreja Universal, na Avenida Mauro Ramos, não havia fiéis entrando no recinto. Assim, foi medida apenas a temperatura deste repórter.

(Texto e fotos: Billy Culleton – 25/5/2020)

 

 

 

 

 

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