A redescoberta do Parque da Luz – De cemitério municipal a uma área verde privilegiada no Centro da Capital

Por Billy Culleton

Durante 70 anos ficou abandonado.
Antes disso, até 1925, no local funcionou o cemitério municipal de Florianópolis, por outras oito décadas.
Mas foi agora que o atual Parque da Luz, uma área de 37 mil metros quadrados (quase 4 hectares ou a mesma quantidade de campos de futebol), foi descoberto pela maioria da população da Capital, impulsionado pela reabertura da Ponte Hercílio Luz.

Conheça a luta pelo parque
Na década de 1990 quando os primeiros edifícios começaram a ser construídos nos altos da Rua Felipe Schmidt, os novos moradores ‘descobriram’ o local e, em 1997, criaram a Associação dos Amigos do Parque da Luz, que buscava lutar pela preservação do espaço, até então ignorado pelas autoridades municipais.
Na época, a área começou a ser cobiçada pelas construtoras e também pelo poder público, que cogitava construir ali a sede da prefeitura.

Mas a mobilização da comunidade e de ecologistas da cidade conseguiu reunir 10 mil assinaturas, o que abriu o caminho para que a Câmara de Vereadores, em 1998, transformasse o espaço em Área Verde de Lazer, garantindo a sua preservação.

Boicote do poder público
A conquista não trouxe o apoio que se esperava das autoridades municipais, que, ‘magoadas’ com a derrota, boicotaram qualquer ajuda oficial.
A saída, então, foi juntar forças e recursos próprios dos moradores para manter o parque.

Dezenas de vizinhos começaram a doar, por meio da conta da Celesc, pequenos valores mensais, suficientes para pagar um único funcionário, Seu Dário.
Atualmente, a Associação continua como principal responsável pelo Parque e ainda é mantida pela colaboração voluntária de seus associados.
Foi ele que durante duas décadas trabalhou sozinho, cuidando, roçando e podando as árvores, que foram sendo plantadas voluntariamente, sem nenhuma orientação, pela população.

Atualmente, são cerca de 5 mil exemplares, de todos os tipos, que cresceram nos últimos 20 anos, já que antes era um terreno baldio, sem nenhuma vegetação.

Mito e preconceito
O Parque foi sendo ocupado gradualmente para atividades de lazer, principalmente, pelos moradores do entorno e também por esporádicos eventos musicais e exposições.

Porém, o preconceito do restante da população florianopolitana com relação à área foi se acentuando: “um local abandonado e inseguro, frequentado por moradores de rua e dependentes de droga”.

Essa descrição injusta, parcial e que denotava desconhecimento, foi reforçada pelos meios de comunicação, com frequentes reportagens superficiais e sem dados, já que houve pouquíssimos registros de crimes no Parque da Luz.
Você se lembra de algum? Não? Este jornalista que mora na frente desta área há mais de duas décadas, também não!

Redescoberta
Nos últimos anos, as administrações municipais começaram a dar um pouco mais de atenção ao local.
Foi instalada a sede da Floram numa construção que era ocupada irregularmente por uma costureira por 20 anos.
Só em maio de 2019 foi inaugurado o sistema de iluminação.

Mas, agora, finalmente, o Parque é de todos!
Graças à reabertura da Ponte Hercílio Luz a população tem invadido a área e a prefeitura feito algumas melhorias.
Adultos e crianças de todas as classes sociais brincam alegremente, correm, pulam e sobem nas árvores.

De uma hora para outra descobriram a única área ainda verde do Centro, com fácil acesso e onde é possível desfrutar do canto dos milhares de pássaros que ali têm seu lar.
Um muito obrigado a todos os que, desde 1995, lutaram para garantir este espaço que, agora, está sendo redescoberto pelos florianopolitanos.

Confira a galeria com imagens da população desfrutando do parque:

Retrospecto histórico
No século 19, o atual Parque da Luz era chamado Colina da Vista Alegre ou o Morro do Barro Vermelho.
Em 1840, a área foi destinada para a instalação do cemitério municipal.
O ‘campo santo’ era considerado ‘afastado’ do Centro e ficava no topo do morro (que era mais alto do que na atualidade, já que foi rebaixado duas vezes).

Em 1925, um ano antes da inauguração da Ponte Hercílio Luz, o necrotério foi transferido para o Itacorubi, levando a maior parte dos 30 mil corpos ali sepultados.
Nas décadas seguintes, estudantes de Medicina e Odontologia ainda frequentavam o local buscando ossos para seus estudos.

Pode estar aí a justificativa pelo abandono e negligência do poder público por quase um século: o temor dos fantasmas ilhéus que rondavam o local, mas que hoje aproveitam a felicidade dos conterrâneos que frequentam o parque e já não assustam mais ninguém.

Confira a galeria com as fotos da evolução do Parque da Luz ao longo dos último anos:

Crédito das imagens: as fotos antigas são do acervo do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina.
As fotos mais atuais são de Billy Culleton.

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