Tiradentes esteve em Desterro? O livro de cabeceira ficou mais de um século em SC? Desvendamos a lenda e o fato

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Por Billy Culleton
O Wikipedia afirma que Tiradentes teria seguido para Desterro com a tropa de reforços portugueses com o objetivo de combater o invasor espanhol Dom Pedro Ceballos, que tinha ocupado a Ilha de Santa Catarina em 1777.

A informação consta na página web sobre o Forte de Santana, localizado na Beira Mar Norte, na capital catarinense.

Com relação à pretensa passagem de Tiradentes por este forte em Santa Catarina, o historiador mineiro Augusto de Lima Jr. (História da Inconfidência de Minas Gerais), afirma que o Alferes Joaquim José da Silva Xavier (1746-92) – o Tiradentes -, que sentou praça (ingressou na vida militar) em 1769 (…) ainda no posto de praça de pré, teria seguido para Santa Catarina com a tropa de reforços contra o invasor D. Pedro Ceballos.”

A reportagem do Floripa Centro foi atrás do livro História da Inconfidência de Minas Gerais, citado pela fonte anônima.
O exemplar, impresso em 1968, não faz parte do acervo da Biblioteca Pública do Estado, na Capital.
Um único exemplar, no entanto, pôde ser encontrado no Sebo Mafalda, na região central da cidade.
A obra conta detalhes preciosos da Inconfidência e da vida de Tiradentes.
Sobre a citada suposta passagem do alferes por Desterro, apenas uma citação, na página 70.

Nas páginas imediatamente anteriores, o autor Augusto de Lima Júnior, faz uma minuciosa descrição sobre a trajetória do inconfidente, desde sua infância, carreira militar até o enforcamento.

Após ressaltar suas virtudes como estadista a serviço da Companhia de Cavalaria da Guarda dos Vice-Réis, o historiador escreve:

Estêve mobilizado no Rio de Janeiro, para seguir para o Sul do Brasil, levando consigo um contingente de soldados o que não se realizou por ter sido considerado indispensável na preparação de recrutas e segurança das comunicações entre Vila Rica e Rio de Janeiro.

Somente isso! Nenhuma outra menção no livro sobre a pretensa passagem de Tiradentes por Desterro.
Ou seja, a narrativa é falsa.

Livro de cabeceira de Tiradentes ficou 124 anos em SC!
Esta história é verdadeira e comprovada.
A obra que serviu de inspiração para a Inconfidência Mineira, e que pertenceu a Tiradentes, esteve em Florianópolis por mais de um século até ser doada ao governo de Minas Gerais em 1984.

O livro “Récueil des loix constitutives des colonies angloises, conféderées sous la denomination d’Etats-Unis de l’Amérique Septentrionale”, é uma compilação das constituições de seis dos 13 estados confederados e da Declaração de Independência dos Estados Unidos (1776).

O exemplar único que passou por Santa Catarina tinha estado nas mãos (e na cabeceira) de Tiradentes e foi entregue por ele a Francisco Xavier Machado, porta-estandarte dos Dragões de Minas, para que o levasse de volta aos inconfidentes em Vila Rica (atual Ouro Preto), conta o jornalista Paulo Clóvis Schmitz, em reportagem publicada no Jornal Notícias do Dia, em 2018.

A obra “Compilação das leis constitutivas das colônias inglesas, confederadas sob a denominação de Estados Unidos da América Setentrional” (em tradução livre) foi doada à Biblioteca Pública de Santa Catarina, em 1860, pelo historiador Alexandre de Mello Moraes.

Escrito na Inglaterra e vertido para o francês em 1778, relata Schmitz, entrou no Brasil num período em que a coroa proibia a publicação e circulação de livros e censurava qualquer manifestação contrária à dominação lusitana nas colônias.
Livros clandestinos eram a válvula de escape, e “Récueil…” caiu no colo dos inconfidentes, servindo de combustível para as ideias emancipacionistas do grupo de José Joaquim da Silva Xavier, o Tiradentes, Tomás Antônio Gonzaga e Cláudio Manoel da Costa”.

O precioso livro pertenceu à Biblioteca durante 124 anos até que, em 1984, após solicitação oficial do governador mineiro Tancredo Neves a seu par Esperidião Amin, foi transferido para o Museu da Inconfidência, em Ouro Preto.

Amin entrega oficialmente a obra ao governador Tancredo Neves (Acervo Esperidião Amin)

Obra fez parte do processo contra o alferes
Após Tiradentes enviar o livro para os inconfidentes em Vila Rica, o exemplar caiu nas mãos do Visconde de Barbacena, então governador mineiro, e após a prisão dos líderes, a publicação foi anexada aos “Autos da Devassa”, ressalta a reportagem do ND.

Mais uma prova de que a obra fez parte dos autos que levaram Tiradentes à forca está na declaração do doador.

Ofereço este precioso livro à Biblioteca de Santa Catarina que diz ter sido o documento número 26 formando parte original do processo da Conspiração de Minas intitulado de Tira-dentes…”, escreveu o historiador Alexandre de Mello Moraes.

“Leitura da Sentença de Tiradentes”, tela de Leopoldino Faria , exposta na Câmara Municipal de Ouro Preto

(A imagem de abertura é a tela Prisão de Tiradentes, de Antônio Diogo Parreiras, exposta no Museu Júlio de Castilhos)

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