Vexame nacional em 1937 – Calote de SC a escultor quase derruba estátua de Hercílio Luz

Por Billy Culleton

Qualquer semelhança com a compra dos respiradores é pura coincidência.
O pagamento antecipado, intermediários, calote e judicialização são os ingredientes de um ‘escândalo nacional’ que envolveu políticos e personalidades da alta sociedade florianopolitana há 83 anos.
Um ano após a inauguração da estátua de Hercílio Luz, na cabeceira insular da ponte, e sem ter recebido o pagamento pela obra, o escultor procurou a Justiça pedindo a derrubada da estátua.

A história será contada a partir da transcrição dos textos do jornal local A Gazeta, que apurou o caso durante dez dias.
Acompanhe a erudita narrativa, recheada de adjetivações e subjetivações (foi mantida a grafia original):

9 de setembro de 1937 – A estatua de Hercilio: diz-se que vai ser arrancada por falta de pagamento ao fundidor
Hoje, com surpreza maguante, chega às mãos um exemplar do Vespertino A Noite, do Rio de Janeiro, com o título:
‘Quer arrancar o monumento – Curiosa ação em torno da estátua’
(
Segue, na reportagem de A Gazeta, a transcrição do Jornal A Noite):
O caso é curioso. Cogitava-se de homenagear a figura de Hercílio Luz.
Nada melhor, portanto –considerou-se – que erigir-se uma estátua ao grande político e ex-governador de Santa Catarina.
Veiu o artista, apareceu a ‘maquete’ e pouco depois o modelo ia para fundição.
O monumento ficou pronto, perfeito.
O fundidor, porém, viu apenas parte do dinheiro.
Como resultado de muitos entendimentos, ficou resolvido que o pagamento restante se processaria parceladamente, sendo que oito contos de réis logo no ato do embarque do monumento para Santa Catarina, onde seria inaugurado.
O volume foi para o Cáis do Porto. O conhecimento de embarque foi apresentado, mas o pagamento combinado não foi feito.
Protelações constantes desafiaram a paciência do fundidor.
Cansado de cobrar sem resultado deixou que tudo corresse como Deus quisesse.
Emquanto não viessem os ‘cobres’, Hercílio Luz em bronze ficaria jogado nos armazéns do Cáis.

E de fato durante meses a artística obra ali ficou.
Passaram-se os tempos.
Um belo dia o fundidor abre as páginas de um jornal e lê, surpreso, esta notícia: “Com grande solenidade foi inaugurado nesta cidade (era telegrama de Santa Catarina), o monumento do sr. Hercílio Luz.
Era demais – pensou – que fizessem a festa, mas pagassem.
E assim pensando, o fundidor iniciou uma ação que presentemente está em marcha para a solução final e cujo objetivo é o seguinte: arrancar da praça pública o monumento que não foi pago.”

(Continua matéria de A Gazeta):
Gravíssima é a revelação que ai fica.
Cabe aos responsáveis explicar o que há a tal respeito (…) e que evitem que se faça passar o povo catarinense pelo vexame, pelo desaire e pela vergonha de ser apontado como caloteiro aos olhos de todo o Brasil e de ver arrancada de seu pedestal, por falta de pagamento ao fundidor, a estatua daquele que foi uma expressão aurifulgente do gênio, do valor e do heroísmo cívico da gente barriga-verde.

O que nos disse o dr. Wanderley Junior
Afim de obtermos esclarecimentos acerca do palpitante caso, procuramos o dr. Wanderley Junior, membro da comissão ‘pró estátua Hercílio Luz’, que nos disse o seguinte:
Trata-se de uma infâmia. O monumento, pelo que sei, foi pago, tendo servido de intermediário, no Rio de Janeiro, para a entrega do mesmo à comissão, o senador Artur Costa. Posso adiantar que o último pagamento ao escultor Antonino de Matos devia ter cabido ao sr. Ângelo La Porta (proprietário do icônico Hotel La Porta), que foi quem se responsabilizou pelo que faltasse inteirar.O que nos disse o senador Artur Costa:
Fui encarregado pela Comissão Pró-estatua Hercílio Luz, de solucionar, no Rio de Janeiro, a situação de impasse em que se encontrava a mesma comissão em face do escultor Antonino de Matos, que não cumprira o contrato e reclamava novas quantias para a conclusão da obra, paralizada desde há muito tempo.
Esgotados os meios suasórios, recorri á ação judicial. Intimado o sr. Antonino de Matos para responder em juízo, este formulou uma proposta, que transmitida á comissão e por esta aceita, foi pelo escultor cumprida. Em face disto, foi-me a estatua entregue pelo que encaminhei ao dr. Amadeu Luz. Sobre o assunto, é o que sei”
18 de setembro de 1937 – Novas declarações do dr. Wanderley Junior
O caso da estátua está repercutindo em todo o país (..) e está tomando foros de escândalo nacional.
Voltamos a procurar o advogado dr. Wanderley Junior, para que, como membro da comissão angariadora dos donativos, nos dissesse algo mais positivo:
A estatua foi integralmente paga ao escultor. Este, entretanto, deixou de entregal-a á comissão, pretextando gráves prejuízos, que o impossibilitavam de liquidar com o fundidor a parte que a este competia.
O escultor, intimado a responder em juízo, formulou então uma proposta, que, consistiu em darem-lhe mais dez contos de réis, com cuja quantia pagaria ao fundidor, retiraria a estatua e entregar-la-ia à comissão.
(…)
Foi nesta altura, que o sr. Angelo La Porta, fez á comissão o oferecimento da quantia
pedida pelo escultor, responsabilizando-se a fazer a entrega da mesma.
Continuando, o dr. Wanderley Junior, esclarece:
– Posso adiantar, que por um intermediário, o sr. Angelo La Porta, na ocasião da remessa da estatua para esta capital, féz a entrega de parte da quantia porque se responsabilizára.
18 de setembro de 1937 – Crêmos que a voz do governador Nerêu Ramos não tardará, pondo termo a celeuma suscitada em torno do lamentável caso
Em entrevista dada pelo dr. Wanderley Junior, ontem publicada por esta folha (…) há uma passagem obscura, que julgámos de bom aviso elucidar, para evitar interpretações intempestivas e maldosas.
Trata-se da declaração:
“Poder adiantar ter o sr. Angelo La Porta, na ocasião da remessa da estatua para esta capital, feito a entrega de parte da quantia porque se responsabilisára”.
O nosso empenho em esclarecer o assunto, de modo a colocar as coisas no seu verdadeiro pé…
(…)
Assim, podemos garantir, que a quantia entregue pelo sr. Angelo La Porta foi apenas 1:700$00 (seria 1,7 conto?), posta em mão do ilustre deputado dr. Abelardo Luz, para pagamento da armazenagem do monumento e outras despezas concernentes ao seu embarque.
(…)
Daqui resulta, portanto, não haver o escultor Antonino de Matos recebido até esta data a importância dos dez contos de réis.
(…)
O assunto não é apenas melindroso. Ele é gravíssimo.
O vexame, no caso de uma decisão judicial favorável ao fundidor, viría recair em cheio na face de todos os catarinenses.
Estamos certos, porém, de que antes de tal decisão judiciária se efetivar, o nobre governador de Santa Catarina, o grande catarinense que é o ilustre sr. dr. Nerêu Ramos (…) evitará a consumação de tamanho deslustre aos brios da gente barriga-verde.
Sua Excia, tomará, não tenhamos disso a menor dúvida, as providências necessárias para que a estatua de Hercílio Luz permaneça intangível no seu pedestal.
(…)
Descansem, pois, os catarinenses, que a voz do atual governador de Santa Catarina, não tardará.”

E nunca mais se falou no assunto!
O que leva a crer que Nereu Ramos teria quitado a dívida (com recursos públicos ou próprios), já que, 83 anos depois, a estátua continua em pé, na cabeceira insular da Ponte.

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