A 80 anos da façanha – Rovere, o taxista manezinho da Praça XV que venceu o primeiro grande rally do Brasil

Por Billy Culleton
Na década de 1930, um jovem chauffeur da Praça XV se destacava entre os colegas pelas reconhecidas habilidades na condução dos ‘carros de aluguel’.
Popular e carismático, o manezinho Clemente Rovere era o mais requisitado para fazer as corridas pelas ruas de Florianópolis.
Embora sem experiência em competições de automobilismo, em 1937, foi convencido a participar do Raid Montevidéu-Rio de Janeiro, uma corrida automobilística de 3,2 mil quilômetros.
Para viabilizar a participação, o governador Nereu Ramos cedeu-lhe um automóvel Hudson Six, fabricado em 1923 e que pertencia ao Estado.

Rovere junto ao Hudson 1923

A competição, entre 4 e 11 de abril, reuniu os 45 melhores pilotos da América, oriundos do Brasil, Argentina, Uruguai e Chile.
Após uma semana, Rovere, junto com o co-piloto Raphael Linhares, surpreenderam a todos e conseguiram um heróico 5º lugar, conquistando a admiração da imprensa nacional.
O locutor oficial da corrida, Carlos Alberto Fraga, disse:

Diante do que esses dois homens estão fazendo com o carro Hudson, devemos confessar que não conhecemos automobilismo. São dois heróis!”, publicou o Jornal O Estado, de 14/4/1937.

Raid Rio de Janeiro-Porto Alegre
Apesar da fama conquistada, Rovere voltou a trabalhar como chauffeur na Praça XV e, eventualmente, participava de corridas regionais.
Em 1940, no entanto, recebeu apoio para representar Santa Catarina no primeiro rally de longa distância realizado no Brasil: o “Raid Rio de Janeiro-Porto Alegre”.
Foram 2.076 quilômetros de precários caminhos, a maioria de terra. A competição aconteceu entre 11 e 17 de novembro e contou com a participação de dezenas de pilotos brasileiros e de países vizinhos.

O manezinho correu com um Ford V8, que ele mesmo preparou, já que era aficionado por mecânica e fazia a manutenção dos próprios carros.
Elite brasileira prestigiou largada
Em 14 de novembro de 1940 foi dada a largada no Rio de Janeiro, com a presença das mais altas autoridades do mundo político, esportivo e empresarial.
A corrida teve três paradas antes de chegar a Porto Alegre: São Paulo, Curitiba e Florianópolis.
Ao final de cada etapa os corredores tinham tempo de recuperar suas máquinas e eles próprios, pois eram muito exigidos física e mentalmente.
Na manhã de 17 de novembro, os pilotos saíram de Florianópolis, acompanhados por uma multidão.
Como o campeão uruguaio Hector Sedes havia vencido a etapa Curitiba/Florianópolis, ele saiu na frente de Rovere, que ficou em segundo.
Mas o motor do carro de Sedes fundiu a poucos quilômetros de Porto Alegre, quando estava nove minutos à frente do catarinense.
Assim, Rovere fez a ultrapassagem e conseguiu vencer uma das mais famosas e importantes corridas de carro em estrada já realizada no país.
Foram poucos os carros que conseguiram suportar a dura prova até a bandeirada final
E, ao chegar à capital gaúcha, o “Ás das curvas”, como era chamado, foi carregado pelo povo, ‘vestindo’ os louros da vitória.
Apesar das chuvas e do estado de conservação das estradas, a velocidade média de Rovere, ao longo dos mais de 2 mil quilômetros, foi de 74 km/hora.

Ele ganhou também o prêmio “Estado de Santa Catarina”, destinado ao piloto que atravessasse o território catarinense no menor tempo.
Depois desta competição, não há registros de Clemente Rovere ter participado de outras competições.


Dados e curiosidades:
– Clemente Rovere, filho de imigrantes italianos, nasceu em Florianópolis em 14/11/1905, fruto da união de Antônio Rovere e de Rosa Lana Rovere.
– Casou-se em 1927 com Alzida Maria de Abreu Rovere com quem teve sete filhos.

– Ele faleceu prematuramente em 1944, aos 39 anos.
– Durante muitos anos existiu, no ponto de táxi da Praça XV, uma pequena placa indicativa, com os dizeres: “Ponto Clemente Rovere”.
– A única homenagem existente na cidade ao mais importante piloto da história de Santa Catarina é a rua que leva seu nome, na Capital, perpendicular à Avenida Mauro Ramos, próximo ao Instituto Estadual de Educação.
– Na época, os jornais faziam uma ampla cobertura diária das corridas.
Exemplo disso foi o Jornal A Gazeta, de 10/4/1937, que publicou na sua capa:
Impressionantemente
Os nossos volantes continuam empolgando, pela impressionante demonstração de arrojo e de técnica que vêm demonstrando.

Eles assinalam a pujança da raça, glorificando as tradições da terra de Anita Garibaldi.

As estações radiofônicas estrangeiras, especialmente do Uruguai e da Argentina destacam o estoicismo deles, reputando como um dos mais competentes volantes da América do Sul.

A rádio Farroupilha disse: ‘Ditosa terra que tais filhos tem‘.”


– A população da cidade acompanhava as façanhas de Rovere pelo rádio.
O povo de Florianópolis poude sentar-se ao pé de aparelhos de rádio e ouvir as notícias que de longe eram gritadas para todos os céus da América. (…) Em torno do acontecimento formou-se em Florianópolis uma electrizante torcida”, disse o Jornal O Estado, de 14/4/1937.

(As fotos históricas são do acervo pessoal de Maurício Rovere, neto de Clemente Rovere.
Já as informações desta reportagem foram pesquisadas nos sites “Clemente Rovere – Um aceno para a história”, “Histórias que vivemos”, e “Curva do S”)

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