Caso de polícia – Em 1857, o ‘primeiro’ banho de mar no Centro escandaliza a população e vira notícia no jornal

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Por Billy Culleton
Numa tarde quente de fevereiro de 1857, há 164 anos, quatro jovens desafiaram as autoridades e entraram nas águas da Praia de Fora, na atual Beira Mar Norte.
A polícia foi acionada para coibir a petulância de tomar banho de mar.

Mas um dos transgressores, que desrespeitou o ‘inspector’, era filho de um conhecido político da cidade e o incidente foi relevado.
Tratava-se de Esteves Júnior, que, posteriormente, se tornaria senador catarinense.
Décadas depois, ele seria homenageado com nome de rua e também da praça próxima de onde aconteceu o ‘delito’.

Busto de Esteves Júnior na praça que leva seu nome, na Beira Mar Norte (Billy Culleton)

Na época, o banho de mar era proibido pelo Código de Postura Municipal.
O artigo 86 era claro. “Fica proibido o uso escandaloso de se mostrarem nas praias, rios ou fontes, pessoas nuas. O que se encontrar desta maneira, sendo livre pagará 4$000 de multa e sendo escravo será castigado policialmente pela competente autoridade”.
Segundo o historiador Oswaldo Cabral, na obra Nossa Senhora do Desterro, o nu não implicava estar sem roupas, mas sim em vestes sumárias.

Praia de Fora no início do século XX em cartão postal (Autor desconhecido)

Notícia
O jornal O Argos repercutiu o mergulho, recriminando a atitude de Esteves Júnior.
Confira alguns trechos do texto “Viva a nossa polícia!”, assinado por ‘um vigia’:

– No dia 11 do corrente em alto dia foram lavar-se na Praia de Fora quatro pessoas entre estas o filho do administrador da Fazenda provincial Antônio J Esteves Júnior e sendo admoestado pelo inspector do Quarteirão respectivo fazendo-lhes ver que o artigo 86 do código de posturas municipais proibia semelhante abuso;

– Foi o inspetor atrozmente desrespeitado pelo senhor Esteves Júnior, dizendo este cavalheiro que se o inspector fosse capaz que o botasse dali para fora, e com palavras obscenas o chamou para a praia, dizendo diante de testemunhas que fosse ou que viesse pegar na vara de inspector;

– No mesmo dia o inspector representou o ocorrido ao senhor delegado, nomeando as testemunhas que presenciaram o crime;

– Consta que o senhor subdelegado ordenou que o inspector retirasse a parte, e assim ficou impune o crime e o senhor Esteves Júnior habilitado a destratar outra vez não só aquele inspector como qual outro e a oferecer-lhe a tal vara!

– Ficou a nossa Municipalidade sem a multa ao passo que por qualquer descuido aplicam ao pobre cidadão o ano do nascimento e o põe a ver jurar testemunhas;

– Ainda haverá quem queira ser inspector de quarteiro? Viva o Patronato! Viva o senhor Esteves Júnior que não deixou encaixar-lhe o artigo 87 do nosso Código Municipal.

Costume mudou em 1920
“Esteves Júnior tinha 25 anos na época e desde os 13 vivia no Rio de Janeiro. Foi a sua convivência com a elite carioca, que já se banhava no mar, que o levou a praticar este ato”, descreve o historiador Sérgio Luiz Ferreira, na dissertação de mestrado ‘O banho de mar na Ilha de SC‘, da UFSC.

Família possa para imagem no início do século na Praia de Santos (Acervo História de Santos)

Segundo ele, a Praia de Fora foi a primeira a ser utilizada regularmente para banhos de mar na Ilha pela elite da cidade, na década de 1920, seis décadas depois do incidente.
Esses banhos eram realizados com as pessoas vestidas, informa Ferreira.

Assim, em pouco mais de um século o banho de mar em Florianópolis passou de delito para momento de lazer, que atrai turistas de todos os cantos do Brasil e do mundo.

(A imagem de abertura mostra a Praça Esteves Júnior antes do aterro da Beira Mar – Acervo da Casa da Memória)

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