O Parque da Luz já foi morro – Entulho do antigo cemitério, com ossadas, foi usado para aterrar a Beira Mar Norte

 

 

 

 

 

 

Por Billy Culleton
Em 1960, começaram as obras do aterramento que deram origem à Avenida Beira Mar Norte.
Para isso, terra e entulho carregados por caminhões foram ganhando terreno sobre o mar.
E a principal fonte foi o morro mais próximo, onde funcionou o cemitério municipal até 1924 e que atualmente é o Parque da Luz.

Parque da Luz na década de 1990 (Arquivo pessoal)

Fotos do início do século passado mostram que a área tinha uma altura de, pelo menos, 50 metros.

Quando o cemitério foi desativado, dois anos antes da inauguração da Ponte Hercílio Luz, os restos mortais foram transferidos para o atual Cemitério do Itacorubi.

Mas, nem todos!
Como descreve a historiadora Elisiana Castro.
“Os termos de exumações apresentam aproximadamente 800 exumações e algumas retiradas de ossadas, não permitindo afirmar a transferência de todos os que ali estavam enterrados”, relata ela, na pesquisa “Aqui jaz um cemitério: a transferência do cemitério público de Florianópolis (1923-26)”, da Universidade Federal de Santa Catarina.
Isto porque, os termos de exumações apontam que o número de sepultados aproximava-se dos 30 mil, na época da transferência.

Na Praça da Bandeira, terra com ossadas
A mudança deixou para trás alguns túmulos, ossos e lápides, que se transformaram em entulho para aterros por toda a cidade.
Logo após a desativação do ‘campo santo’, o que sobrou (terra e escombros com ossos e lápides) foram usados, por exemplo, para o aterramento da Praça da Bandeira, na frente da Assembleia Legislativa.

Praça da Bandeira (Divulgação: TJ/SC)

“A terra era carregada por carroças, caçambas e caminhões. Na Praça da Bandeira, se encontravam ossadas dos defuntos que foram tirados junto com a terra do cemitério”, contou o florianopolitano Waldir Vargas, em depoimento a Edna Rosa, autora da pesquisa “A relação do crescimento urbano de Florianópolis com as áreas dos cemitérios”, divulgada pela UFSC, em 1998.

Historiador de 91 anos relembra aterro
Décadas depois, o local que era chamado de Colina da Vista Alegre, Morro do Barro Vermelho ou, simplesmente, Morro do Cemitério foi a principal ‘jazida’ para a construção da Beira Mar Norte.
No início, a avenida tinha quatro pistas, duas para cada lado. Só na década de 1980 é que foi ampliada para seu formato atual.

Embora o Floripa Centro não tenha encontrado registros oficiais sobre o uso do morro para o aterro, a tradição oral ‘dos mais antigos’ confirma o fato.
“Lembro perfeitamente dos caminhões sendo carregados no antigo cemitério para construir a Beira Mar”, conta o professor Nereu do Vale Pereira, de 91 anos, um dos mais antigos historiadores vivos de Florianópolis.

E, assim, o local que sedia o agora ‘aplainado’ Parque da Luz passou por duas grandes transformações em menos de um século: deixou de ser cemitério… e deixou de ser morro!

Em 1925 (foto de Felipe Bündgets) e em 2020 (foto Billy Culleton)

Confira mais fotos da área (a foto de abertura é de Felipe Bündgets, na obra ‘Ponte Hercílio Luz, do sonho à realidade’):

Novas informações a partir da interação dos leitores:
“Vale lembrar uma curiosidade:
O administrador do ‘novo’ cemitério do Itacorubi, tio avô do também historiador Ney Cláudio Franzoni Viegas, ficou semanas para inaugurar o cemitério.
Não morria ninguém!
Advinha quem foi o primeiro a ser enterrado!?
O próprio! Ora, ora!”
(Ricardinho Machado)

“Outra curiosidade sobre cemitérios antigos de Florianópolis.
Atrás da igreja São Francisco tem o Centro comercial “ARS”, praticamente o primeiro shopping da cidade e primeiro prédio da cidade com escada rolante.
Onde hoje se situa o ARS, era o cemitério da igreja São Francisco, que por tradição, cemitérios eram edificados ao lado ou nos fundos das igrejas.
Lembrando que era também, normal sepultar os “nobres”, dentro das igrejas.”
(J.I.Cibils)

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