Periferia de Florianópolis será a mais afetada caso não receba atenção especial do poder público, alerta Padre Vilson

O Padre Vilson Groh, reconhecido pela sua atuação de quatro décadas junto às comunidades carentes da Grande Florianópolis, faz um apelo para tentar evitar consequências desproporcionais do coronavírus na periferia da cidade.
E apresenta algumas sugestões práticas que podem minimizar o efeito sobre as pessoas mais necessitadas da nossa sociedade.

Confira o artigo ‘Pandemia e eqüidade’:
A equidade é um dos princípios doutrinários do Sistema Único de Saúde (SUS) e tem relação direta com os conceitos de igualdade de direitos e de justiça.
Isso fica evidente, por exemplo, no atendimento aos indivíduos de acordo com suas necessidades, oferecendo mais, a quem mais precisa, e menos, a quem requer menos cuidados.
Busca-se, assim, reconhecer as diferenças nas condições de vida e saúde e também nas necessidades das pessoas, considerando que o direito à saúde passa pelas diferenciações sociais e deve atender à diversidade.

Proporcionalmente, morte de negros é maior
Durante os últimos dias temos notícias preocupantes sobre os primeiros sinais do avanço da pandemia sobre as periferias das maiores cidades brasileiras.

Os fatos sugerem o mesmo padrão que estamos vendo de forma mais adiantada nos EUA.
Tudo aponta para um agravamento maior do coronavírus nessas populações.
As mortes de negros em algumas cidades americanas chegam a ser percentualmente três vezes maior do que a proporção de negros que moram nesses centros urbanos, chegando a alarmantes 90% em Albany, na Georgia.

E os primeiros dados sobre a mortalidade de negros no Brasil, causadas pelo vírus, preocupam.
Considerando que só agora a pandemia está chegando às comunidades pobres, eles já são 1/4 dos internados e 1/3 dos mortos do país.
O fato é que, potencializado pelas desigualdades e condições sanitárias, estão morrendo mais negros do que o percentual que eles ocupam nas áreas atingidas.

Jovens vetores da disseminação
Outro grande problema é a imensa população jovem das periferias: sem aulas, sem alimentação, sem orientação familiar e sem informação direcionada e específica.
Projeções colocam eles, ainda que na maioria assintomáticos, como os principais vetores de disseminação da pandemia nessas comunidades.

Apesar de nossos graves e complexos problemas sociais, Florianópolis tem tamanho, mapeamento e presença das equipes de saúde da PMF/ SUS e capilaridade em projetos da sociedade civil que podem contribuir para que a gente consiga deter em parte essa onda.
E se tratando de vidas, deter em parte significa muito!

Sugestões para a periferia
Para isso, precisamos da presença do poder público e da sociedade civil organizada nessas comunidades, construindo ações como as que seguem:

Parceria com lideranças comunitárias:
– Criação de um canal permanente que una o poder público e os representantes das comunidades para centralizar as diretrizes, estratégias e ações do combate à pandemia nas periferias.
– Ao mesmo tempo em que se mantém intacta a autoridade de saúde e sanitária da cidade, os movimentos organizados da sociedade civil, que já têm raízes nas comunidades, podem auxiliar na prevenção e na operação local das ações, através da criação de forças-tarefas, uso das redes de voluntariado e das redes de comunicação.

Motivos para prioridade de testes na periferia:
– As piores condições estruturais para o isolamento social nas favelas, por exemplo, torna o tempo sem teste num grande disseminador do vírus nessas comunidades.
– Isso é muito mais danoso para a tentativa de bloqueio, do que a feita em bairros mais abastados da cidade.
– Os idosos dessas áreas, em média, vivem menos e têm mais comorbidades e fatores de risco associados.
– A maioria da população da periferia é composta por negros, que começam a aparecer consistentemente entre os grupos de risco.
– Projeções de que os jovens de periferia podem se tornar vetores que acelerem o contágio.
– Acesso muito menor à rede privada de atendimento de saúde, no caso dos agravamentos.

Comunicação direcionada para as comunidades:
– Cartilhas oficiais com linguagem específica e criativa, educando para os protocolos de segurança, levando em consideração as condições médias de vida e moradia das comunidades periféricas.
– Vídeos didáticos com dicas dadas por pessoas das comunidades ou pessoas reconhecidas pelas comunidades.
– Podcasts para que circulem nos telefones como uma rádio comunitária, acompanhando e alertando para a progressão da pandemia dentro desses bairros.

Esses são alguns exemplos, demandas de um contexto onde a velocidade dos fatos não permite que algo seja estanque.
No fundamento desses pleitos, nada mais que o cumprimento racional dos princípios de EQUIDADE, que sempre acompanharam o SUS.

Padre Vilson Groh

(A imagem de abertura é divulgação do Vatican News)

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