Personagens do Centro – A persistência baiana do seu Manoel à frente do Café no Bule

Por Frutuoso Oliveira

O Centro de Florianópolis tem inúmeros personagens pitorescos.
Uma dessas figuras diferenciadas pode ser encontrada na esquina das ruas Felipe Schmidt com a Padre Roma.
Manoel Jerusalém da Silva Soares é seu nome. Café no Bule é o nome da sua lanchonete.
Aos 70 anos, o baiano de Feira de Santana, está há 27, no mesmo ponto.
Orgulha-se de todos os dias, de domingo a domingo, ter café fresco e quente às seis horas da manhã.Ele tem um estilo direto de atender ao freguês.
Alguns o acham grosseiro, mas no fundo é uma alma doce e simpática.

Mas não é de hoje que seu Manoel está atrás de um balcão.
Com 17 anos chegou em São Paulo, com apenas duas mudas de roupa, para tentar a vida. Foi trabalhar na padaria de um português.
Lá, ficou até conseguir uma vaga no ramo de bancas de jornais. Chegou a ter dez bancas na região central da capital paulista.

Depois passou a abrir lanchonetes e passar o ponto à frente.
“Eu gostava de montar o estabelecimento, fazer a freguesia e repassar para outro”, lembra.
Um dia cansou de São Paulo.
“Não passava uma semana sem que fosse assaltado. Era muita violência”.

Escolheu Florianópolis para fixar residência e trabalhar.
No Café no Bule, a clientela é eclética.
Entre os habitués estão Cláudio Lovato, um bancário aposentado, apaixonado pelo Grêmio e pela aviação, e o catarinense Katinha Branco, veloz ponta direita do Vasco que já deu caneta no Júnior Capacete, do Flamengo, com o Maracanã lotado, no início dos anos 1980.
Nem mesmo os moradores em situação de rua ficam sem um café e um lanche.
“Se tenho para mim, também tenho para os outros”, argumenta.

Só não gosta dos arruaceiros. Para eles, tem dois parceiros: um porrete, apelidado de Chico Doce, e um facão, que chama de delegado.
Na política é contra o governo, a quem chama de Bolsonário, mas prefere não discutir com estranhos.
“Sabe como é. O povo hoje está agitado. É melhor não tocar no assunto”.

A pandemia espantou os clientes dos bares do centro. O Café no Bule é uma das vítimas.
Um que outro para tomar uma cerveja ou fazer um lanche.
Mas, seu Manoel se mantém firme com as portas do Café no Bule sempre abertas, a espera de dias melhores.

(As fotos também são de Frutuoso de Oliveira)

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