A descoberta do cisne negro, no Centro de Florianópolis – Crônica de Carlos Nogueira*

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Nunca vi antes um cisne tão grande. Mesmo se ele tivesse tamanho comum, também não lembraria de ter visto, de tão perto, outro igual.
Ao contrário dos cisnes que eventualmente encontro, todos eles de cor branca, este na minha frente é negro.
Há mais uma discrepância: em vez de superfícies aquáticas, o cisne que agora observo habita em blocos de concreto.

Nos topamos sempre no mesmo lugar, durante a minha caminhada para o trabalho. Diante de sua magnitude, é difícil não o perceber.
Quem poderia ignorar um cisne negro de quase mil metros quadrados em pleno centro de Florianópolis?
Talvez alguém para quem as ruas sejam apenas obstáculos entre o local de partida e o de destino. Não é o meu caso.

Mas voltemos ao protagonista. Apesar dos encontros costumeiros, confesso que somente nesta tarde parei para observá-lo com calma.
Ele possui uma postura altiva, com as asas abertas, como se estivesse prestes a se descolar dos dois paredões em que nada.
Em um terceiro paredão, a ave está representada na forma humana, que corresponde à imagem do poeta catarinense Cruz e Sousa: o cisne negro da literatura.

Existe ainda, gravado em letras tão colossais quanto o restante, um de seus sonetos mais famosos: “Enlevo”.
Aqueles versos convidam os pedestres para uma pausa; para que também abram as asas, e voem um pouco além dos compromissos aos quais se dirigem.

A paisagem destes paredões me lembra da minha infância em Goiânia. Mais precisamente de um lago, o Lago das Rosas.
Nele, havia pedalinhos em formato de cisnes. Eram de várias cores: branco, amarelo, verde, azul, roxo. Mas nenhum deles era negro. Nenhum.

Tanto tempo depois, finalmente estou diante de um cisne negro. Me sinto um pouco como o explorador holandês que, no século dezessete, fez o primeiro registro de um exemplar.
Até então, a existência deles era desconhecida: isso foi o que li em algum lugar.
Mas eles existem sim. E, pelo que consigo perceber, são enormes.

* Escritor angolano-brasileiro,residente na Grande Florianópolis. ‘A descoberta…” faz parte do seu mais novo livro de crônicas, Deslocamentos, da Editora Penalux.

Clique AQUI para saber mais sobre o livro.

(As fotos são de Billy Culleton)

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