Desde 1940 – Bar mais antigo de Florianópolis, em atividade, vai fechar as portas

Por Billy Culleton
A média de idade dos frequentadores é um pouco menor do que as oito décadas em que o Bar Glória está aberto, no Estreito.
A maioria dos clientes (todos homens!) tem mais de 60 anos, são nativos do bairro e consideram o local como um clube familiar, onde o principal é confraternizar (bebendo!) com os parceiros de balcão.

O estabelecimento é um dos últimos botecos à moda antiga: um único atendente pouco sociável, uma televisão antiga ligada na Globo e fregueses que se conhecem desde jovens e que fazem piadas ‘típicas manés’ uns com os outros, o tempo todo.

Se antes, ainda era servida a tradicional almôndega, agora é só bebida: cerveja, destilados, cuba livre e vinho de garrafão.
Tudo, a preços acessíveis para a maioria dos aposentados que ali vão diariamente, principalmente, antes do meio-dia e no final de tarde dos dias úteis (nos finais de semana, sempre tem um churrasquinho, para o almoço, feito na calçada).

História
Foi o manezinho Orivaldo Peixoto que abriu o bar em 1940, quando a Rua Coronel Pedro Demoro, uma das mais importantes do Continente, ainda era de paralelepípedos.
Na década de 1980, o estabelecimento foi assumido por Osmar, irmão do fundador, e seu filho Alexandre, hoje com 49 anos, que é o atual responsável, e atendente, do Glória.

Alexandre, há 40 anos atrás do balcão

Decoração diferenciada
Além dos quadros, com desenhos da Florianópolis antiga, a principal decoração é uma caixa registradora enferrujada (e empoeirada), de mais de 70 anos, em cima do desgastado balcão de fórmica (o dono ainda guarda, ali, as notas de valor baixo).

Também tem um antigo baleiro de vidro, com chicletes (similares aos ‘Ping Pong’), balas de hortelã, paçoca e bombons Amor Carioca.

O grande espelho horizontal na parede atrás do atendente permite cuidar do bar, mesmo de costas.

Em cima, a tradicional prateleira de bebidas expõe algumas garrafas vazias (que parecem cheias) de poucos tipos de destilados.
Apenas os consumidos no dia-a-dia do boteco.

Para fumar é só caminhar dois metros até a calçada, onde a tragada é autorizada.

Dominó
No fundo do estreito bar de três metros de largura, tem uma pequena sala escura onde os ‘véio’ jogam dominó.
Apostou cerveja, pague antes no balcão!”, diz o aviso escrito a mão, numa folha colada na parede, junto à entrada do único banheiro do estabelecimento.

Ao lado, o tradicional placar (também num papel improvisado) com a lista dos últimos ganhadores e perdedores, com direito ao nome dos que levaram uma ‘lisa’ ao longo do ano.

Tudo termina
O prédio (que tem um restaurante ‘panorâmico’ em cima) foi colocado à venda em 2018.
Sem interessados, neste final de ano, o dono desistiu de vender e decidiu reformar a edificação para alugar novamente.

A obra começou numa pequena sala ao lado e, no início de janeiro, é a vez do bar.
O proprietário do imóvel ofereceu a Alexandre, responsável pelo Glória, para continuar no local após a reforma.
“Ah, não sei se volto… é muito trabalho e preocupação para pouco retorno financeiro”, diz ele, que está atrás desse balcão há quatro décadas.
“Quem sabe coloco algum negócio na minha casa”.

Filosofia de boteco
O certo é que o célebre Bar Glória, jamais será o mesmo, mesmo numa improvável reabertura.

Aquele que durante 80 anos proporcionou grandes satisfações aos seus clientes, encurtou muitas trajetórias e proporcionou inúmeras dores de cabeça aos familiares dos frequentadores.
É a vida…!



(A foto de abertura  é acervo de Alexandre Peixoto, dono do bar. Algumas fotos estão fora de foco porque são flagrantes ‘ao vivo’, sem nenhuma preparação…)

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