Diário da Quarentena – Sensação de urgência, ebulição, desconcentração e cuidados com a demência do pai

Por Elaine Tavares*
Acho chique quem, nesta hora pandêmica, consegue ler Hegel, estudar, escrever tese.
Eu não consigo.
Acordo de manhã, estupefata. Ufa. Tô viva.
Olho para o lado e o peito do pai tá subindo e descendo. Outro alívio.
Levanto, dou comida pra os bichos e, com renovada surpresa, vejo despertarem meu companheiro e meu sobrinho.
Ufa de novo.

A manhã passa rápida, consumida no trabalho das coisas do Iela (Instituto de Estudos Latino-Americanos).
É o momento em que consigo suspender o pensamento e focar no que tenho de produzir do meu trabalho.
Faço o que posso, distribuindo textos e vídeos, mas não tenho conseguido escrever em profundidade. Tudo está nebuloso.

A tarde passa e eu, nos cuidados com o pai.
E o tempo todo essa turbulência no espírito.
Estaremos vivos amanhã?
Tento ler um livro, não dá. E quando a noite chega me encontra ainda nessa ebulição.

Falo com amigos, família, mas a sensação de urgência continua.
E até o pôr do sol é vislumbrado com uma nostalgia maior. De noite vejo as notícias e meu coração ensombrece. O mundo me dói.
As pessoas morrendo sozinhas nos hospitais me doem. Os enterros solitários me doem. As pessoas chorando na porta dos hospitais me doem.
Não consigo ficar de boa. Tudo está tão triste.

Não entendo como algumas pessoas podem seguir vivendo como se nada. Eu sinto uma profunda tristeza.
O Brasil me dói.
Pela pandemia, pelo mau governo, pela inconsequência dos que ocupam o poder.
São dias sombrios. Queria mais do que notas de repúdio. Não sei.

Queria poder ficar leve. Mas não dá. Espero o sono, inquieta e incapaz de fixar atenção em nada. Acordo no meio da noite e olho para o pai. Respira. Volto a dormir.
E no dia seguinte, acordo, estupefata.

O isolamento e o pai
O isolamento social tem cobrado seu preço aqui em casa. Misturado com a demência do meu octogenário pai, o resultado é um desastre.
Primeiro que os dias se converteram todos em domingo, com todo mundo em casa.
E com mais gente circulando, o pai perde a centralidade da atenção. Fica com ciúmes e aí é um deus nos acuda.
Agride todo mundo, perde a tramontana e fica num vai-e-vem sem fim, como um bicho acuado. Faz a volta na casa umas mil vezes, andando sem parar, e quando fica bem transtornado começa a se meter no meio das árvores, dos arbustos, da plantação.

Tudo isso é um risco tremendo, e tenho de ficar andando atrás dele porque se deixo sozinho, ele pode cair e se machucar.
Não aceita que eu segure seu braço, então só posso ficar como uma sombra, rezando para conseguir segurar se ele for ao chão.

Sem poder sair de casa, a rotina do pai se quebrou e, com isso, também quebra alguma coisa no cérebro, imagino eu.
Nos primeiros dias de confinamento eu ia inventando uma mentira ou outra, mas com os passar do tempo já fui perdendo os argumentos.

E ele fica no portão, com os olhos num vazio cheio de desespero.
Existe uma tal de síndrome do pôr-do-sol que se constitui num desejo irrefreável de sair, de “ir pra casa”.

E a única forma de fazer esse desespero passar é sair, caminhar, encontrar pessoas, distrair. Sem isso, vem a violência, a raiva, e a descompensação.
Isso tem seus reflexos durante o dia todo e fica ainda pior durante a noite. Aí mistura tudo.
A aflição pelo vírus que aí está e que pode atingi-lo, e também pelo estado de sofrimento que o confinamento tem causado.

Outro dia, quando a rua parecia vazia de gente, eu abri o portão e pensei: vou andar com ele uns metros e voltar.
Mas, ele queria ir no barbeiro e como sabe o caminho foi me arrastando. Tive de usar todas as artes e sortilégios para fazê-lo voltar. Voltou emburrado e a emenda ficou pior que o soneto.

A ânsia por sair agora também aparece durante a noite e, do nada, ele levanta da cama e sai andando no rumo do portão.
Se eu tranco a porta é um escândalo, então tenho de deixar sair. Procuro cobri-lo com bastante roupa quente, mas ele vai arrancando tudo.
E eu tenho de ir recolhendo e tentando colocar tudo de volta, afinal, as noites são frias.

Ele finca o pé no portão e não sai. Eu pego a sombrinha e abro, para tentar evitar o sereno.
A cena é louca: na madrugada estrelada, eu com a sombrinha aberta no portão.
É um terror digno de Stephen King.
É o vírus, é a demência, é a possibilidade de uma gripe qualquer, uma descompensação maior.
Tudo é sofrimento.

Um pouquinho de paz vem de manhã quando Rolando Boldrin consegue segurar sua atenção. É quando eu também consigo colocar em dia o trabalho, que igualmente me cobra tempo. E é uma dureza tentar concentrar depois de todas essas aventuras, sabendo que ‘logo, logo’ elas vão recomeçar.

Nesse turbilhão estou já quase mergulhada na demência também.
O pouco de sanidade me vem dos livros, os quais vou sorvendo quando possível, como se fossem pequenos oásis no deserto da solidão.

* Jornalista e servidora da UFSC

O Floripa Centro criou este espaço para que moradores da região central de Florianópolis possam partilhar como estão passando a quarentena, enquanto o coronavírus não passa!

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