Novembrada, 40 anos – Achamos o jovem que liderou a destruição da placa em homenagem a Floriano Peixoto

Por Billy Culleton

Dez dias depois de completar 18 anos, Alberto Amaral se sentiu apto a enfrentar quem fosse necessário para demonstrar a sua insatisfação com os rumos políticos e econômicos do Brasil no final da década de 1970.
Por isso, na manhã de 30 de novembro de 1979 foi até o Palácio de Governo (atual Cruz e Sousa) para protestar contra a ditadura militar.

Cerca de 2 mil pessoas estavam no local para festejar a visita do presidente João Figueiredo.
Mas, Amaral se juntou aos cerca de 20 jovens estudantes, que começaram a entoar palavras de ordem e, por fim, insultar o militar.
Logo depois, um Figueiredo transtornado desceu à rua para tirar satisfação, mas foi impedido de brigar pela sua segurança.

Amaral mostra o lugar exato onde estava o pedestal com a placa

Já com o presidente de volta ao Palácio, Amaral gritou: “Não vamos deixar esse filho da ditadura homenagear outro bandido!”.
Na hora, cinco estudantes correram com ele em direção à figueira da Praça XV. Embaixo da árvore símbolo da cidade, tinha sido construído um pedestal de concreto com a placa em homenagem a Floriano Peixoto, que seria inaugurada por Figueiredo.

Uma corda puxada por um estudante ajudou a derrubar o pedestal – Foto: James Tavares

Empolgados com o protagonismo dado pelo presidente, começaram a chutar a estrutura, enquanto colocavam fogo no entorno.
Diante de curiosos e manifestantes atônitos com a iniciativa, minutos depois, os estudantes conseguiram derrubar o pedestal e descolar a placa que caiu no chão.
Mas, por causa do fogo, estava muito quente, ao ponto de envergar.

Foto: James Tavares

Decidiram, então, tirar as próprias sandálias e chinelos para conseguir levantá-la como um troféu. “Foi um momento de euforia: aproveitando que estávamos com os chinelos nas mãos começamos a bater com o calçado na placa”, conta Amaral.

Foto: James Tavares

Na sequência, os estudantes foram até a frente do Palácio e atiraram a placa contra a porta.
Foi o ápice da Novembrada!

Embora, na hora, alguns imaginaram que era apenas uma traquinagem de poucos estudantes, a destruição da placa que homenagearia o homem que, em 1894, mandou fuzilar 185 catarinenses na Fortaleza de Anhatomirim, na Grande Florianópolis, se tornou o símbolo de rejeição à ditadura militar, iniciada pouco antes pelas manifestações contra Figueiredo.

Entrevista/Alberto Amaral – “Como manezinho não podia ficar quieto!”

Manezinho de 58 anos, o cinegrafista Alberto Amaral falou esta semana pela primeira vez à imprensa sobre o fato que marcou a visita presidencial há 40 anos e que o teve como principal protagonista.

Você participava do movimento estudantil?
Não, eu era estudante secundarista numa escola do Centro e ouvi falar que haveria uma manifestação contra Figueiredo. Como as aulas foram suspensas, naquela manhã, aproveitei para ir na Praça XV. Eu estava muito indignado com a situação econômica e política do país. Os preços subiam todos os dias e a população estava passando muitas necessidades.

Como começaram os protestos?
Me juntei aos cerca de 20 estudantes que estavam nas escadarias da Catedral e começamos a gritar palavras de ordem. Quando Figueiredo e Bornhausen saíram na sacada do Palácio foram aplaudidos pela maioria, mas nós continuamos gritando: “Mentiroso! Filho da puta!”, além de cantar contra o presidente e o regime militar.
Aí, quando Figueiredo fez aquele gesto de ‘mandar tomar no cu’, foi uma loucura. O protesto cresceu muito, ao ponto de silenciar os que estavam festejando a visita presidencial.

E quem lembrou da placa?
Eufórico com a proporção que tomaram os protestos gritei para não deixarmos homenagear um assassino. Em seguida, saímos correndo até a figueira. Éramos cinco ou seis estudantes. Em alguns minutos, tínhamos conseguido colocar fogo na placa e depois a atiramos contra o Palácio.
Abandonamos a lâmina e saímos correndo até o Ponto Chic para continuar os protestos.

Sete estudantes foram presos nos dias seguintes à manifestação. O que aconteceu com você?
Além de estudar, eu trabalhava como frentista num posto de gasolina na Avenida Osmar Cunha. Ao perceber a repercussão do caso, fiquei com muito medo e decidi me esconder no posto: não sai durante três dias. Comia e dormia no local, contando com o apoio do proprietário. Mas, depois disso, nunca fui incomodado, graças a Deus.

Quatro décadas depois, qual a sua avaliação dos fatos?
Eu sinto muito orgulho de ter participado ativamente da Novembrada. A situação do país era calamitosa, com muita inflação e preços altos. A população estava cansada da ditadura militar.
E ainda queriam homenagear o maior assassino da história de Santa Catarina. Como manezinho nascido na Maternidade Carlos Corrêa, não podia ficar quieto. Já não chegava que trocaram o nome de Desterro para Florianópolis.

Reportagem relacionada: A Novembrada na visão de Jorge Bornhausen: “Figueiredo causou o lamentável episódio”

O reencontro com a placa, 40 anos depois

O Floripa Centro marcou a entrevista com Alberto Amaral na Praça XV. Ele mostrou o local exato onde ficaria a placa de homenagem a Floriano Peixoto e reviveu os principais fatos daquele 30 de novembro de 1979.
Mas o que Amaral não sabia era que iria se reencontrar com a famosa placa no Museu Histórico de SC, no mesmo Palácio que recebeu Figueiredo. A lâmina está no local desde 2017, após décadas desaparecida.

Após pagar o ingresso, subimos no primeiro andar do Museu, sem alarde. Ao mostrar-lhe a placa, Amaral foi tomado por uma silenciosa emoção. Por alguns instantes ficou paralisado olhando para aquele objeto que marcou a sua vida (e também a história do Brasil).


Apesar do aviso de ‘Não tocar’, ele não resistiu e tomou a placa para observá-la mais de perto e reviver a cena de quatro décadas atrás. “Não acredito, não acredito…”, repetia em voz baixa.

Foto: James Tavares


“Olha aí, sou eu nessa foto”, disse Amaral, apontando para a imagem ao lado da placa onde ele aparece cabeludo, segurando a lâmina.

Relíquia esteve desaparecida por 16 anos

O coronel da Polícia Militar Nilo Marques de Medeiros Filho era responsável pela segurança do Palácio Cruz e Sousa naquele dia.
Após os manifestantes atirarem a placa na porta do Palácio, ele a recolheu.

“Foi Nilo quem pegou a placa na frente do Palácio e a guardou na Casa Militar. Lá ficou até 1983, quando então, por precaução e temendo pelo destino daquela relíquia histórica o militar pediu para guardá-la em casa”, escreveu o jornalista Marcos Espíndola, em reportagem do Diário Catarinense, de 30 de novembro de 2009.

Coronel Nilo Marques em registro do repórter fotográfico Júlio Cavalheiro de 2009

A reportagem de Espíndola lembrava que durante 16 anos ninguém conhecia o paradeiro da lâmina: muitos a davam como desaparecida ou destruída.
Até que em 1995 sua localização foi revelada: Nilo a apresentou durante um julgamento histórico sobre Floriano Peixoto promovido na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

A partir de então, Nilo tentou devolver a relíquia, mas esbarrava na falta de interesse do poder público. Até que, por ocasião da comemoração dos 30 anos da Novembrada, em 2009, foi possível a doação à Casa da Memória.
Mas há cerca de cinco anos, o Museu Histórico de SC iniciou as negociações pedindo a placa para exibição no Palácio, em regime de comodato.

Assim, desde 2017 a peça mais famosa da Novembrada está à mostra no primeiro andar do Museu e, coincidência ou não, a menos de dois metros do retrato em metal de Floriano Peixoto.

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