O faquir que morreu durante uma apresentação, no Centro, e decretou o fim da modalidade no Brasil

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Por Billy Culleton
No início do século passado, os shows e apresentações de faquires atraiam multidões em todo o mundo.
E em Florianópolis não era diferente.

Entre as décadas de 1910 e 1940 era muito comum a população local assistir às performances destas figuras exóticas nas casas de espetáculos da cidade, como o Teatro Álvaro de Carvalho (TAC).

O Jornal O Estado, de 4 de outubro de 1917, anunciava a exibição do Fakir Moreno, apresentando o “emocionante trabalho de catalepsia”, no TAC.
O espetáculo consistia num número em que o artista era enterrado vivo e permanecia coberto de terra durante duas horas.
Depois, voltava cheio de saúde para delírio do público.
Durante esses 120 minutos havia exibição de outros espetáculos, como ilusionismo.

Os espetáculos dos faquires também incluíam hipnotismo e transmissão de pensamento, como publicou o jornal florianopolitano República, de 14 de março de 1934, sobre a apresentação do fakir catarinense Barbaramar, no palco do Clube 7 de Setembro.
Cama de pregos e jejum
Nas décadas seguintes, as performances curtas nos cinemas e teatros deram lugar a longos espetáculos em locais públicos.
As provas consistiam no encerramento do faquir em uma urna transparente durante dias, semanas ou meses, para realizar jejum total.
Na maioria das vezes, dormiam sobre pregos e vidros e junto com cobras.
Geralmente, para ver a cena era necessário pagar uma taxa.

Heráclis dentro da redoma (Reprodução Blog Os Albertos)

Exibição no Miramar
O lendário Miramar, próximo à Praça XV, foi palco de uma dessas exibições na década de 1960.
“Nesse espaço lembro-me do fakir Heráclis que dentro de uma redoma de vidro ficou deitado, sem camisa, em cima de uma cama de pregos por 40 dias e 40 noites sem beber e sem comer”, afirma o professor Sérgio Roberto Schmidt, que nasceu e cresceu em Florianópolis.

Miramar, foi palco da exibição pública do fakir Heráclis (Casa da Memória)

Ele conta que a visitação era grátis e pública.
Na época, Schmidt era estudante e recorda que também presenciou quando abriram os cadeados para retirarem Heráclis da redoma.

Morte na Igreja São Francisco
Uma década depois, em dezembro de 1977, o famoso fakir, que atuava na América do Sul desde os anos 1940, voltou a Florianópolis.
Ele pretendia quebrar o recorde mundial de 100 dias de jejum, marca que pertencia ao fakir Silki.

Como preparação para a façanha que deveria ocorrer em Buenos Aires, durante a Copa do Mundo de 1978, Heráclis construiu uma cabana de madeira ao lado da Igreja de São Francisco, no Centro, e iniciou uma prova de jejum de 30 dias.
Centenas de pessoas se aglomeravam diariamente para vê-lo na Rua Deodoro, esquina com a Felipe Schmidt.

Cabana na esquina democrática recebia  multidão (Reprodução Blog Os Albertos)

De acordo com o Blog Os Albertos, no sétimo dia, em 26 de dezembro, ele morreu repentinamente dentro da urna, vitimado por um mal súbito.

“Nada pôde ser feito para salvá-lo: 27 cadeados, cujas chaves estavam em poder de autoridades locais, separavam o faquir do resto do mundo”, diz a publicação, se transformando num dos episódios mais trágicos do faquirismo brasileiro.

Repercussão nacional
O blog reproduz trecho da matéria publicada sobre o falecimento de Heráclis na revista “O Cruzeiro” no início de 1978.
Nela, o repórter Leopoldo Oberst decretava o fim do faquirismo no Brasil.

“Com a sua morte, ao que parece, o faquirismo no Brasil chega ao seu crepúsculo. Silki está inativo e nem cogita por enquanto de voltar às praças públicas para enfrentar os riscos da urna. Urbano se aposentou e agora faz horóscopos pelo rádio. Não há nem candidatos para substituírem essas figuras. E, com a morte de Heráclis, o time de faquires perde seu último homem em campo. Mas fica a advertência: quando forem jejuar, conservem as chaves da urna nas proximidades. Pode surgir uma emergência.”

Fracasso no enterro na Praça XV
Em fevereiro de 1933 outro fakir, Ferry, protagonizou um episódio que entrou para o folclore da Ilha.
Ele anunciou que ficaria enterrado durante 15 dias, sem acesso a comida e água.
O evento, segundo o Jornal O Estado, aconteceria no ‘terreo do prédio n. 9, á Praça 15 de Novembro’.

“Essa prova está despertando a curiosidade e, naturalmente, muitas serão as pessoas que velarão o morto-vivo”.
A nota termina assim: “Por nosso intermédio, o fakir Ferry convida a população para assistir ao seu enterramento”.

Três dias depois, no entanto, ‘em vista do fracasso da bilheteria’, Ferry suspendeu a prova e saiu do caixão.
Frustrado com a apatia dos florianopolitanos foi embora da cidade para nunca mais voltar.

Confira vídeo sobre os faquires:

(A imagem de abertura é apenas ilustrativa e é reprodução do Wikipedia)

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