Sambódromo – Moradores de rua recebem assistência, mas correm risco de contaminação e de transmitir o vírus

Os responsáveis pela Passarela da Cidadania dão sinais de cansaço e esgotamento.
Seja pela falta de estrutura ou de funcionários (terceirizados contratados e voluntários), aparentemente, desistiram de ‘dar murro em ponta de faca’ e, agora, fazem apenas ‘o que é possível’.

Essa foi a sensação sentida pela reportagem do Floripa Centro que visitou o espaço in loco.

Os frequentadores entram e saem do ‘sambódromo’ sem nenhum controle, poucos usam máscaras, ficam próximos uns dos outros e dormem em colchões no chão, separados por menos de um metro de distância.
O lugar aparenta estar limpo, há banheiros químicos e lavatórios portáteis.
Mas não se percebe a higiene constante que atualmente é indicada para locais frequentados por muitas pessoas.
Seria uma tarefa herculana, que a prefeitura e os poucos voluntários, simplesmente, não conseguem fazer.

A prefeitura justifica dizendo que o espaço foi ampliado para atendimento emergencial.
“Porém, diante do excessivo número de usuários e a dificuldade em ter pessoas trabalhando (grupo de risco, atestados, falta de transporte, decreto de isolamento), ficou inviável fazer o controle de todas as pessoas que entram no local”, afirmou a gestão municipal, por meio da assessoria de imprensa.
A explicação, em tempos de emergência geral, pode parecer compreensível, mas o que está em risco são as vidas de 300 seres humanos que frequentam diariamente a Passarela.
E também a ameaça deles contaminarem outras pessoas pelas ruas da cidade.

Camarotes transformados em dormitórios vips
Os camarotes ‘chiques’, usufruídos pelos vips nos desfiles de Carnaval, se transformaram em quartos exclusivos para dois ou três, que se organizam para manter o lugar limpo e arrumado.
A maioria dos frequentadores, no entanto, está acampada nas enormes áreas existentes embaixo das arquibancadas, que foram transformadas em dormitórios coletivos.
Cada um tem um colchão, que fica no chão e que estão separados por menos de um metro.
As roupas são penduradas em varais improvisados.

‘Maluquinhos e alegrinhos’
Homens caminham pelo vão central da passarela, apenas para se exercitar.
Um ‘maluquinho’ anda de um lado para outro, falando palavras sem nexo.

Outro, ‘alegrinho’, mexe com cada um que passa, tentando ser engraçado. Aparenta embriaguez.
“Mas pode beber aqui dentro?”, pergunto para um que está ao meu lado. “Antes era proibido, mas agora estão tolerando”, responde, secamente.
“Se incomodar muito, os próprios colegas se encarregam de acalmá-lo”, acrescenta.
Alguns preferem a intimidade e instalaram suas barracas ‘iglu’, no entorno das arquibancadas. Dentro, os próprios ‘cacarecos’ e o colchão. Desde aí, têm acesso facilitado à higiene e alimentação.

Benefícios e assistência social
A Prefeitura de Florianópolis, junto com as equipes de voluntários, oferece as quatro refeições diárias, sempre acompanhadas por suco.
De manhã, café, pão e uma fruta. Ao meio-dia é distribuído um marmitex, com arroz, feijão, massa e carne.
À tarde, fruta com café, e à noite, sopa com pão ou cachorro-quente.
Embora exista um grande refeitório, com mesas e cadeiras para cerca de 100, cada um tem a liberdade de consumir o alimento onde quiser.
Assim, alguns se acomodam próximos de seus aposentos, nas barracas ou nas arquibancadas.

Histórico
Desde o início da pandemia, em meados de março, a Passarela da Cidadania foi escolhida para concentrar todo o atendimento às pessoas em situação de rua da cidade.
Antes, havia atendimento também no Centro Pop, na Rua Anita Garibaldi, e num abrigo no Bairro Jardim Atlântico.

O número de pessoas que frequentam o local diariamente dobrou, passando de 150 para 300, aproximadamente.
Destes, cerca de 200 pernoitam no espaço, sendo 180 homens e 20 mulheres (há espaços separados para ambos os sexos).

Além das refeições, são oferecidas diversas atividades: acupuntura, corte de cabelo, educação física, confecção de currículos e atendimento psicossocial, além de yoga e roda de conversa.
Funcionários também estão ajudando as pessoas a se cadastrar para receber o auxílio emergencial de R$ 600, oferecido pelo governo federal. Segundo a prefeitura, já foram feitos 100 atendimentos para esse fim.

Avanço no acolhimento
O atendimento à população em situação de rua na Capital tem melhorado muito nos últimos tempos, embora esteja longe do ideal.
Se, antes, esses indivíduos eram discriminados e reprimidos sistematicamente pelas ‘autoridades’, há pouco mais de um ano começaram a ser acolhidos e atendidos, por meio de assistência social.
Nesse contexto, foi aberta a Passarela da Cidadania: no início, os frequentadores recebiam os benefícios de alimentação e higiene durante o dia e eram ‘dispensados’ no final de tarde.
Meses depois, passou-se a oferecer hospedagem à noite.

O que diz a Prefeitura de Florianópolis
Após visitar a Passarela da Cidadania, a reportagem do Floripa Centro encaminhou algumas perguntas para a assessoria de imprensa da Prefeitura de Florianópolis.
Confira as respostas:

1 – Em visita ‘in loco’ do Floripa Centro à Passarela da Cidadania foi constatado que não há controle no acesso ao local.
O espaço foi ampliado para atendimento emergencial. Porém, diante do excessivo número de usuários e a dificuldade em ter pessoas trabalhando (grupo de risco, atestados, falta de transporte, decreto isolamento), ficou inviável fazer o controle de todas pessoas que entram no local.

2 – Há controle de temperatura?
Existe uma parceria com a Secretaria de Saúde com o consultório na rua, que atua conforme a necessidade no local. Eles vão diariamente até a Passarela da Cidadania, ambiente onde sempre que é preciso os servidores são orientados a entrar em contato com a equipe de saúde. Temos um ambulatório no local, onde os usuários são atendidos e têm a temperatura medida.

3 – É exigida a obrigatoriedade do uso da máscara entre os frequentadores?
A máscara é entregue a todos os usuários, que recebem orientação sobre o uso. Contudo, temos no espaço dependentes químicos, ex-presidiários e pessoas com problemas psiquiátricos, o que dificulta exigir o uso.
Obrigar a usar a proteção individual também envolve a segurança de quem trabalha ali…

4 – Como é feito o controle para verificar se o frequentador é portador da Covid-19?
Pela equipe do consultório na rua, do Centro de Saúde da Prainha, que vai diariamente ao local.

5 – Quantas pessoas foram isoladas da Passarela por serem portadoras da Covid-19, nos últimos 30 dias? E quantos foram confirmadas com Covid-19?
Não houve nenhum caso confirmado de Covid-19 entre as pessoas em situação de rua. Foram encaminhadas (a um hotel, para isolamento) 24 pessoas suspeitas, sendo que duas vieram do Hospital Universitário e uma do Posto da Prainha.

5 – Quantas pessoas estão pernoitando no local? Quantos homens e quantas mulheres?
Cerca de 200 pessoas. 180 homens, 20 mulheres. Isso muda de acordo com o dia.

6 – Quantos pessoas a Prefeitura (e os voluntários) conseguiu ajudar a fazer o cadastro para receber o auxílio emergencial do governo federal?
Foram mais de 100 atendimentos.

(Texto e fotos: Billy Culleton)

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