Personagens do Centro – Quando o violão e um pincel são as únicas companhias pelas ruas da Capital

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Por Ricardo Medeiros (especial para o Floripa Centro)
Yuri Pyjaks mora ao ar livre nas redondezas da Praça Professor Amaro Seixas Neto, frente à Avenida Beira Mar Norte, em Florianópolis.
Nasceu no dia 23 de setembro de 1987, em Francisco Beltrão (PR) e faz 16 anos que se encontra em Florianópolis.

“É uma ilha. Vim fazer tatuagem por aqui. Não deu certo. Roubaram todo o meu material”.

Mesmo assim, faz questão de emendar que a cidade é linda.

Pinta também telas, toca violão e compõe.

O que ele é então? Resposta: um artista.

Pele branca curtida pelo sol, manchas de cicatrizes em algumas partes do corpo e sujeiras nas mãos denunciam uma vida nas ruas.
Repousa sobre os dedos negros de fuligem um cigarro bolado.

Cabelo louros, embaraçados, revela também um longo período sem cuidados, assim como a barba comprida e desgrenhada.

Roupas surradas em preto, azul e verde, cobrem o corpo do artista.

Antes de tocar uma música para mim, indagou-me se eu tinha acesso à internet em meu celular.
“Vê aí um afinador online”.
Queria deixar o instrumento no ponto.

Cantou uma música em inglês, não a entendi.

“Você gosta de viver ao ar livre?”.
Ele foi direto: “Ninguém gosta!”.
E acrescentou:
“Não é o que você faz. Mas, como você faz. Não importa o lugar. O lugar não vai mudar nada”.

Confira a entrevista completa:

Eu continuo com as perguntas.
“Você queria ter uma casa?”.
Ele: “própria?”.
Afirmo que sim.

Yuri se manifesta.
“Uma vez me disseram uma frase. ‘Você pode ver o mundo como um copo pela metade. Você pode ver ele como meio cheio ou meio vazio’. O mundo é um copo meio cheio. A outra metade o governo já tomou”.
Momento em que solta um sorriso, quase riso.

“Se você ficou um mês desempregado, você está pego”
Gostou de falar.
“A pessoa nasce, ela já deve. Ela deve pagar por um lugar. Não existe metro quadrado que já não seja de alguém”.

“Então, se você não tem dinheiro para comprar um terreno e construir a tua casa com as próprias mãos. Você vai ficar na rua”.

‘Se você vive de aluguel e não tem emprego, você está sujeito a parar na rua. Todo o tempo. O tempo todo. Se você ficou um mês desempregado, você já está pego”.

“Aí vem aquele problema: a pessoa na rua para chegar nas drogas é muito rápido”.

Agradeci o papo, segui meu caminho de bicicleta.
Deixei o artista de 33 anos com sua nova criação: uma tela.

Nela repousa a paisagem de uma lagoa ao entardecer, com luzes refletindo na água e pedras do fundo.
Céu com muitas nuvens e cores.
Uma grande árvore, sem folhas, em destaque, com a silhueta de uma fada pairando sobre ela.

(As imagens são de Ricardo Medeiros)

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