Piso metálico deteriorado – Ponte Hercílio Luz sofre com as 6 mil travessias mensais de ônibus

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A Ponte Hercílio Luz, em Florianópolis, está tendo um desgaste inesperado, há pouco mais de 18 meses de sua reabertura.
O principal motivo?
As 6 mil travessias mensais realizadas pelos ônibus urbanos.

São 253 viagens diárias  entre o Continente e a Ilha, realizadas (nos dias úteis) por veículos que pesam, em média, 20 toneladas.

O desgaste pode ser conferido no piso metálico da ‘Velha Senhora’.
O gradil apresenta dezenas de pequenas rupturas.

A grande maioria dessas gretas está na pista que liga o Continente à Ilha: é nessa via que circulam 90% dos ônibus.
No retorno para a área continental os coletivos utilizam a Ponte Colombo Salles, por uma questão de facilidade de acesso desde o Terminal de Integração do Centro (Ticen).

A reportagem do Floripa Centro percorreu a Ponte num final de semana, quando é exclusiva para pedestres e ciclistas, e contou pelo menos 25 falhas nos gradis.
Apenas duas, na via em direção ao Continente.

A empresa Teixeira Duarte, responsável pela reforma, ainda mantém funcionários que fazem os reparos no piso.
Nos finais de semana, eles repõem e soldam os pequenos pedaços de metal que vão se soltando e caem no mar.

O remendo fica aparecendo, por ser feito com solda e pintado novamente, ficando levemente diferente à cor original do piso.

A Ponte foi reinaugurada em 30 de dezembro de 2019.
Os primeiros ônibus começaram a circular em 27 de janeiro de 2020 e, gradualmente, houve um aumento das linhas, até atingir, atualmente, 253 horários, conforme informações repassadas pela Prefeitura de Florianópolis.

Confira vídeo, com o resumo da notícia:

O que diz a Prefeitura
O Floripa Centro questionou a Prefeitura sobre eventual estudo que mostrasse a capacidade máxima de peso que suportam os gradis e/ou sobre o desgaste que eles podem sofrer.
A resposta, por meio da assessoria de imprensa, foi que essa avaliação seria competência da Secretaria Estadual de Infraestrutura, responsável pela Ponte.
A partir desses dados, segundo a administração municipal, poderia ser tomada uma decisão conjunta sobre a passagem dos ônibus.

Neste registro é possível ver os ‘ferrinhos’ desgastados, retorcidos, antes de se desprender do gradil

O que diz o Estado
O Floripa Centro enviou as seguintes perguntas para a Secretaria Estadual de Infraestrutura (SIE).
Confira as respostas enviadas por meio da assessoria de imprensa:

1 – Essas rupturas do gradil estavam previstas quando liberaram os ônibus que pesam 20 toneladas cada um?
Não há uma relação entre a liberação do transporte e as necessidades de manutenção. A manutenção será realizada, pontualmente, nos locais onde houver necessidade.

2 – O piso tem resistência para suportar a passagem de 6 mil ônibus por mês? Como é mensurada essa resistência dos gradis metálicos?
O material possui resistência. Para verificar essa situação foram realizados vários testes durante obra, como por exemplo, os testes de carga realizados no decorrer dos serviços. Os materiais utilizados na execução da Ponte Hercílio Luz passaram por uma validação e aprovação. Os aços das barras de olhal, por exemplo, foram desenvolvidos especialmente para a estrutura da ponte, com fiscalização e acompanhamento de técnicos e engenheiros.

3 – Atualmente, a manutenção é feita pela Teixeira Duarte, até quando a empresa fará a manutenção? Quem assumirá essa função depois?
Atualmente a manutenção é realizada pela empresa Teixeira Duarte. Enquanto a obra não for definitivamente entregue, a responsabilidade segue sendo da empresa. A necessidade de manutenção já foi constatada pela equipe de fiscalização da SIE, durante a inspeção que ocorre antes da entrega da obra.
O contrato será finalizado após a conclusão da manutenção e dos ajustes exigidos pela fiscalização da SIE.
A SIE deve lançar, em julho, o edital de licitação para a manutenção da estrutura.

4 – Existem peças de reposição, caso seja necessária a troca de alguma placa desse piso metálico?
Cada tabuleiro possui uma especificação técnica. A reposição de cada um deles também estará no contrato de manutenção da ponte.

Vantagens e desvantagens do gradil, segundo a UFSC
Uma pesquisa feita pelo Departamento de Engenharia Civil da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em 2019, aponta que a adoção de gradis metálicos na Ponte Hercílio Luz foi feita, principalmente, por ser mais econômica.
Mas também aponta outras vantagens (confira abaixo).

Outra alternativa seria a colocação de placas metálicas, com adição de dermasfalt em cima, presentes na Ponte Pedro Ivo Campos, escreveu Victoria Prudêncio de Campos Lobo, no estudo “Execução da superfície de rolamento da Ponte Hercílio Luz com gradis metálicos”.

Confira as principais conclusões da pesquisa da UFSC:

Vantagens
— “Entre as vantagens dos gradis está a facilidade da manutenção em comparação ao asfalto.”

— “Como as peças têm instalação independente umas das outras, caso haja um problema em alguma delas ou na estrutura inferior da ponte, é possível realizar a troca ou retirada de apenas uma unidade, ao invés de mobilizar uma grande área para a manutenção.”

— “A adoção dos gradis em detrimento do pavimento tradicional asfáltico, pelo fato de a malha ser aberta, dispensa o projeto de drenagem, a qual acontece com a água escorrendo entre as aberturas do gradil.”

— “Além disso, a lavagem da ponte é necessária com menos frequência do que em uma ponte com pavimentação tradicional, visto que a chuva retira impurezas da superfície de forma natural.”

Características do gradil
— “Segundo Marangoni/Meiser, empresa fabricante das grades metálicas utilizadas como superfície de rolamento na Ponte Hercílio Luz, as placas de gradil foram fabricadas pelo processo de prensagem das barras secundárias nas barras principais para o vão central pênsil e para ambos os viadutos de acesso da ponte.”

— “A malha é formada por furos de 50mmx35mm. Há variações de tamanhos das peças de gradil e, em decorrência disso, o peso é variável. O peso médio das placas é de 290kg.

— “As grades, segundo a Teixeira Duarte, têm o mesmo comprimento de 2245mm, com exceção daquelas nas regiões curvas, as quais têm o comprimento variável em sua extensão. A largura, porém, é variável de acordo com a disposição das grades no tabuleiro devido à geometria da estrutura metálica da ponte, que possui duas curvas, uma na entrada insular e outra na entrada continental,

— “As peças foram compradas prontas a partir de Meiser/Marangoni e foram fabricadas conforme os projetos da Teixeira Duarte e as normas internacionais RAL – GZ 638 Estruturas Gradeadas de RAL Deutsches Institut für Gütesicherung und Kennzeichnung e.V. (Instituto Alemão para a Garantia de Qualidade e Identificação) e ASTM 572”.

Carga suportada
— “A carga é determinada com base no tráfego que passa na BR-101, que deve ser o mesmo que a Ponte Hercílio Luz estará apta a receber.”

Substituição do gradil
— “Serão mantidas algumas placas extras para o caso da necessidade de substituição. Porém, devido à diferença de geometria dos gradis é necessário que a peça a ser substituída tenha a mesma geometria da nova e, portanto, a necessidade de um estoque de alguns tipos de peças.”

— “A manutenção dessa técnica é uma das grandes vantagens da utilização de gradis metálicos: caso haja problema em uma das placas de gradil ou em alguma parte da ponte inferior à pista de rolamento, a troca ou retirada da placa pode ser feita apenas com o uso de um guindaste e algumas ferramentas e, após finalizado o serviço, é recolocada outra placa de gradil no lugar – isso torna a manutenção mais rápida e simples.”

— “Dada a especificidade das placas, se ocorrer um problema em uma quantidade maior de gradis de um tipo específico do que aquela armazenada, a manutenção terá de esperar até a chegada de uma nova placa e, dependendo do dano, a ponte deverá ser interditada para o conserto.”

Vibração e barulho
— “A utilização de gradis metálicos em pontes torna a experiência de dirigir pouco confortável devido ao barulho e vibração, além de possíveis problemas de deslizamento em dias de chuva.”

— “As reentrâncias nas barras principais garantem suficiente resistência pneupavimento e dificultam a derrapagem, mas o barulho e a vibração são superiores a um pavimento clássico de concreto.”

(Texto e fotos de Billy Culleton)

 

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