Uma crônica para aqueles que estão com saudades do samba na Travessa Ratcliff

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Por Frutuoso Oliveira

Onde foi parar meu samba?
Pensei em começar esse texto contando a vocês o meu nome.
Mas isso não interessa ou pouco interessa, até porque não temos o direito de escolha.
Conheço um tanso que se chama Frutuoso e acha seu nome o máximo.

Vou apenas dizer quem sou.
Um morador do Centro de Florianópolis, vizinho da Travessa Ratcliff, aquele pedaço de chão entre as ruas João Pinto e Tiradentes, na região Leste.
São pouco mais de 30 metros que já me causaram tanta dor de cabeça, para não dizer tanto ódio.

Os centros de operações da PM e da Guarda Municipal devem ter os registros de quantas vezes telefonei para reclamar do som alto.
Como aquilo me fazia mal.
Samba. Aff! Aquela música de preto. Aquela música de pobre.

Como amaldiçoei aquele dia que fechei o negócio desse apartamento, comprado no extinto BNH.
Como já odiei aquela gente na rua, cantando, dançando, bebendo e falando alto.
Quantas vezes pensei como seria legal a volta da ditadura para moralizar esse pequeno trecho de rua.
Foi um dos motivos que me faz cravar 17.

Cheguei ao ponto de ver, da minha janela, homem beijando homem e mulher beijando mulher.
Como um pedaço tão pequeno de rua pode comportar tantas espécimes que repugno.

Confesso. Até porque já me confessei na missa de domingo. Já tive vontade de passar por ali, um sábado, às quatro da tarde, quando está fervendo, jogar um balde de gasolina e atear fogo.

O pior: vi ali famílias com filhos pequenos e com cachorros. Cheguei a ligar para o conselho tutelar e para a Dibea, mas não fui atendido.

Mas teve um final de semana que não veio ninguém. O silêncio imperou no Centro.
Como isso me fez bem.
“Vocês gostam de festa, mas têm medo de um vírus”, pensei.
“Vocês têm medo de uma gripezinha”, como disse meu presidente.

Como fui feliz naquele sábado. Eu venci. O coronavírus me trouxe a vitória.
Vocês não fazem ideia como amei os chineses nesse dia.
Preciso fazer mais uma confissão e olha que essa eu não fiz para o padre: já desci várias vezes, disfarçado, e conversei com aquela turma.
Tive vontade de ficar, mas meus princípios conservadores não deixam.

Sabe como é, a gente precisa conhecer o inimigo para poder lutar.
Lição de Sun Tzu.

Só que os finais de semana de silêncio foram se repetindo.
Por incrível que pareça, isso começou a me fazer falta.
Não ouvi mais aquele som do cavaquinho.
As batidas do atabaque sumiram. Onde foi parar o batuque do pandeiro que ditava o ritmo.
Até aquela música que tanto odiava e que de tanto detestar, às vezes até cantarolava:
“Não deixe o samba morrer/ Não deixe o samba acabar/
O morro foi feito de samba/ De samba pra gente sambar./

Está me fazendo falta.
Hoje tudo me faz falta. Esse silêncio me tortura.
Onde foi parar a bela Jandira Souza com seus sambas?
Para onde foram aqueles homens lindos (juro que é uma saudade hétera) que cantavam e dançavam nas tardes de sábado.
Aquelas mulheres belas e independentes, para onde foram?

Não gosto de confessar, mas sinto falta até daquelas feministas pedindo #lulalivre.
Seu Lidinho? Que sempre via por ali e que um dia até cheguei a trocar uma conversa.
O que será dele sem o samba e o samba sem ele?
O que é feito do Má e seus passos descompassados, sempre rindo feliz.

Onde anda aquele vereador gay? Não pára quieto, anda de uma mesa a outra conversando com todo mundo.
Soube que agora tem o sobrenome Mussi, mas sei que será sempre da Silva.

Onde está toda essa gente que tirava meu sossego e agora me faz tanta falta?
O silêncio da Travessa Ratcliff está me torturando.

O que eu faço para pedir que vocês voltem?
Telefono para o Gean? Peço ao coronel Araújo Gomes? Me digam, o que faço?
Neste sábado olhei para a travessa silenciosa.
Vi a bailarina pintada no grafite do artista que assina como “Ignoreporfavor” e me senti no mundo real.

Sim, o mundo e o samba me ignoraram.

Para onde foi meu samba, pensei. Sim, o samba é do povo. Nunca foi meu, mas hoje acho que ele também é meu.
Corri para o telefone e liguei para a PM, pedindo meu samba de volta e eles não entenderam.
Liguei para a Guarda Municipal e eles, educadamente, me disseram que é para ficar em casa.

Então, como não tinha o que fazer. Como não tinha a quem apelar, corri pela travessa gritando com toda força dos meus pulmões:
Eu queroooooo meeeuuuuu saaaambaaa caaaaraaalhoooooo!!!!!!

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