Delírio, comoção e morte – No século passado, gripe espanhola infectou 30% da população de Florianópolis

Pânico tomou conta da cidade: trabalhadores mendigavam e serviços não funcionavam

Por Billy Culleton

Exatamente há um século, 30% da população de Florianópolis foi atingida pela gripe espanhola. Dos 36 mil habitantes da Ilha, cerca de 10 mil foram infectados pela doença, causando a morte de 124, entre outubro de 1918 e abril de 1919.

A gripe, que vitimou mortalmente 50 milhões de pessoas pelo mundo e 31 mil no Brasil, chegou à Capital a bordo do vapor Itaquera que, vindo do Rio de Janeiro, atracou em Florianópolis em 6 de outubro de 1918, trazendo 38 passageiros gripados.

Sete dias depois já era notificada a ocorrência do primeiro caso autóctone da influenza espanhola.

O jornal O Estado, de 19 de outubro de 1918 informava que o vírus já se encontrava entre os catarinenses e enfatizava seu ‘caráter benigno’.

A grande maioria dos doentes, 6 mil, se encontravam no perímetro urbano da ilha, ou seja, o atual centro da cidade, segundo o Relatório Anual de 1918, do Inspetor de Higiene de Santa Catarina, Joaquim David Ferreira Lima.

Pessoas afetadas pela gripe em registro de hospital do Rio de Janeiro em 1918 (autor desconhecido)

Pavor toma conta da cidade
Artigo publicado pela Revista da Associação Catarinense de Medicina, em 2011, chamado “A pandemia de influenza espanhola (1918) em Florianópolis” revela detalhes da abrangência da doença na cidade. Os autores, Bruno Rodolfo Schlemper Junior e Ana Claudia Dall’Oglio, realizaram profunda investigação sobre o fato, recorrendo a arquivos públicos e jornais da época.

Segundo eles, a rotina da cidade foi radicalmente alterada pela presença da pandemia. O temor e o pânico se instalaram na população florianopolitana, ao ponto de se afirmar que, de fato, existiram duas epidemias: a da gripe espanhola e a do medo da gripe espanhola.

O caos na cidade foi registrado pelos jornais da época. O jornal O Estado, no dia 16 de novembro de 1918 e, portanto, no ponto máximo da pandemia em Florianópolis, pintou em cores dramáticas a situação do cotidiano das pessoas humildes durante o surto (foi mantida a grafia original):

“Homens validos, operarios e jornaleiros, foram arrastados a mais extrema penuria. Familias que nunca appelaram para a caridade publica se tem visto na dolorosa contigencia de mendigar por recursos para os seus doentes, pois a impossibilidade de trabalharem as compelia a esta triste necessidade. Não se pode fazer uma idéia fiel e precisa do sofrimento, afflição e da angustia que vae pelos bairros pobres, onde a peste grassou e está grassando ainda com intensidade”.

Relatório da Inspetoria de Higiene, de 1918, deixa claro sobre a calamidade que se instalou no dia-a-dia de Florianópolis. “Uma rajada devastadora e mortífera, transformando e desorganizando por completo a vida ordinária de todas as localidades, enchendo de apprehenções e depois de pânico a todos os espíritos”.

O jornal O Estado, de 6/11/1918, sob o título “Pensemos nos pobres”, descreve a intensidade com que a gripe atingiu as classes menos favorecidas e solicita o apoio dos mais ricos.

O jornal chegou a instalar uma Comissão de Assistência, a qual estimava, em 19 de novembro, ter socorrido mais de 4 mil pessoas necessitadas. Esta ação do jornal foi decorrente da inexistência de serviços públicos capaz de dar atenção à população socialmente mais vulnerável.

Confira nota do jornal Terra Livre, de Florianópolis, de 29/11/18, sobre proibição a aglomerações de pessoas:
“O Sr. Superintendente Municipal, de acordo com o Sr. Dr. Inspector de Hygiene, expediu hoje portarias proibindo as romarias aos cemitérios e entrada de mais de oito pessoas nos mesmos por ocasião de enterros”.

As autoridades também determinaram a desinfecção de carroças de lixo e recomendavam evitar visitas a cortiços e outras casas consideradas de baixa higiene.
Ao mesmo tempo, recomendavam a desinfecção das casas de dois em dois dias com água e creolina, exposição diária ao sol das roupas de cama, manter as portas e janelas abertas durante o dia.

A obra “O garoto e a cidade: Florianópolis dos anos 20”, de Renato Barbosa, retrata o pavor causado pela doença:
“Estabelecimentos de ensino fechados; os cinemas cerraram as portas; a turma se dispersava dos pontos habituais; os sinos da Catedral plangiam a finados o dia todo; o obituário de “O Estado” arrolava nomes conhecidos e queridos; os gêneros alimentícios escasseavam no mercado; os médicos não tinham mãos a medir; agonizantes, estertorando, se amontoavam pelas alas e corredores do Hospital de Caridade e do Hospital Militar; nas farmácias, os estoques de medicamentos iam sendo consumidos, hora a hora (…)”.

Charge publicada na época ironiza chegada da doença ao país (autor desconhecido)

Soluções caseiras

As incertezas e o desconhecimento da comunidade médica diante da nova pandemia, que acabou matando o presidente brasileiro Rodrigues Alves, fizeram com que fossem prescritos medicamentos já usados em outras doenças, como a quinina – conhecida no combate à malária – e que se mostrou ineficaz.
Assim, começaram a surgir fórmulas caseiras a fim de conter a doença, com os mais diversos ingredientes, como água destilada, bicarbonato de sódio e raízes guiné, além de purgante de óleo de ricino, aspirina e arsênico.

Infectados com gripe em hospital (Imagem do Senado Federal, autor desconhecido)

Os sintomas envolviam febre, dores de cabeça e catarro. O jornal A República, em novembro de 1918, descreveu os sintomas da doença entre os florianopolitanos.

 “O começo da molestia é ordinariamente brusco. Em geral os typos clássicos da influenza começam por uma “febre” bastante forte, depois de repetidos “arrepios” de frio, violenta “dor de cabeça”, grande prostração geral, e muito frequentemente “dores” bastante intensas das “costas e das cadeiras. A prostração é algumas vezes tão profunda que pessoas bem robustas são obrigadas a se meter na cama. Outras vezes se observam symptomas nervosos, excitação e delírio”.

A última morte pela gripe espanhola em Florianópolis foi em abril de 1919, ou seja, há exatamente um século.

Curiosidades

– A gripe espanhola apareceu pela primeira vez nos Estados Unidos.

– O presidente brasileiro Rodrigues Alves, eleito em março de 1918 para o segundo mandato, cai de cama “espanholado” e não toma posse. O vice, Delfim Moreira, assume interinamente em novembro, à espera da cura do titular. Alves, porém, morre em janeiro de 1919, e uma nova eleição é convocada.

– No Rio de Janeiro chegou em setembro de 1918.

– A pandemia de influenza espanhola é considerada, até os tempos atuais, como a maior e mais grave das doenças infecciosas que afetou o mundo, calculando-se que, em 1918 e 1919, metade da população mundial foi contaminada (600 milhões) e que entre 20 e 100 milhões de pessoas morreram em consequência de suas graves complicações respiratórias.

– Em Florianópolis, entre os afetados 52% eram mulheres e 48%, homens.

– Já em relação aos óbitos por faixa etária, o grupo de 0 a 9 anos respondeu por 22%; o de 10 a19, por 11%; o de 20 a 29 anos, por 19%, e o de 30 a 39, por 16%, enquanto nos grupos com idade igual ou superior a 40 anos, este percentual foi de 13%.

(A imagem de abertura da reportagem é da Mary Evans Picture Library)

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