Uma canção é inspirada no mar do Centro – Três sucessos de Gilberto Gil têm relação direta com Florianópolis

Em janeiro de 1986, o cantor Gilberto Gil estava hospedado no Hotel Diplomata, no Centro da Capital, quando recebeu a ligação de Herbert Vianna, do Paralamas do Sucesso, pedindo para que o baiano escrevesse somente a letra de uma música, já que a melodia instrumental estava pronta.
Em seu site oficial, Gil descreve como se deu o processo de composição da letra de “A Novidade”, como conta o site Sereismo:

Fui pro hotel e botei a fita no gravador. Depois de umas quatro passadas, saí anotando. Eram mais ou menos duas da tarde. Às três horas eu estava ligando pro estúdio já para passar a letra. Foi uma coisa assim: bum!”, disse Gil, inspirado com as belezas do mar da Baía Sul, que conseguia admirar pela janela do quarto do atual Hotel Intercity, na frente do Terminal Rodoviário Rita Maria.
A música teve um enorme sucesso junto ao público, com uma abordagem social, que mostrava a desigualdade no país, na metáfora da sereia: “A novidade veio dar à praia/Na qualidade rara de sereia… /Ó, mundo tão desigual..”

Tese de doutorado garante que Gil falava nas desigualdades de Florianópolis
O Paradoxo Da Sereia – Um Estudo Longitudinal Sobreviver De Jovens Em Florianópolis”, é o título da tese de doutorado de Dóris Regina Marroni Furini, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, de 2009.

“O título dessa tese foi inspirado na música de Gilberto Gil, que, comovido com as belezas e mazelas da ilha de Santa Catarina, canta seu lado encantador e o outro, desigual”, afirma no resumo da pesquisa.
E continua: “Para o poeta, Florianópolis é uma sereia, estendida na areia – Metade o busto de uma deusa maia, metade um grande rabo de baleia. É o paradoxo da beleza e do horror: de um lado este carnaval, do outro a fome total. Vivem nesta ilha/sereia poetas e esfomeados”.

Confira o vídeo de “A novidade”:

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Sandra: homenagem às mulheres durante a prisão
Após ser preso em Florianópolis, em julho de 1976, ele foi internado no Instituto Psiquiátrico de São José.
Na clínica, ele compôs “Sandra”, uma homenagem às mulheres com quem conviveu naquele período.

Gil conta, no seu livro “Todas as Letras” quem era cada uma destas mulheres da canção
Todas as meninas mencionadas em Sandra foram personagens daqueles dias”, publicou o site Música em Prosa:

a) Maria Aparecida, Maria Sebastiana e Maria de Lourdes me atenderam no hospício durante o internamento imposto pela justiça enquanto eu aguardava o julgamento. A de Lourdes me falava a toda hora: ‘Você vai fazer uma música pra mim, não vai?’ ‘Vou’.

b) Carmensita: essa – foi interessantíssimo -, logo que eu cheguei, ela veio e me disse, baixinho: ‘Seja bem-vindo’.

c) Lair era uma menina de fora, uma fã que foi lá me visitar.

d) Salete era de lá: ‘Meu café é muito ralo’, me falou. ‘É exatamente como eu gosto, chafé’, respondi.

e) Cíntia: também de Curitiba, como Andréia. Quando passamos pela cidade, me levou ao sítio dela uma tarde; foi quem me deu uma boina rosa com a qual eu compareceria ao julgamento mais adiante, em Florianópolis, e com a qual eu apareço no filme Os Doces Bárbaros.

f) Ana: ficou minha amiga até hoje; de Florianópolis.

g) Dulcina, que era a mais calada, a mais recatada de todas na clínica, a mais mansa – era como uma freira -, foi a única que um dia veio e me deu um beijo na boca.
Sandra, citada no final da letra, era minha mulher.

Confira o vídeo de “Sandra”:


A gaivota: símbolo da liberdade

Na clínica psiquiátrica, Gil também compôs a canção “A gaivota”, que fez sucesso na voz de Ney Matogrosso.
A música surgiu após o cantor visitar a Barra da Lagoa e passar pela inspiradora Lagoa da Conceição.
“Gaivota menina/De asas paradas/Voando no sonho/Daguas da lagoa”
“Gaivota na ilha/Sem noção da milha/Ficou longe a terra/Gaivota menina”

Confira o vídeo de “A Gaivota”:

(Fotos de abertura e sequência obtidas do Jornal da Paraíba)

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